A Mônica pode ser nossa Mulher Maravilha e nossa Hermione juntas

A Mônica pode ser nossa Mulher Maravilha e nossa Hermione juntas

Os dois longa-metragens live action da Turma da Mônica previstos para o ano que vem podem amplificar o trabalho de empoderamento feminino que vem sendo feito pela MSP, que é detalhado pela diretora-executiva da empresa, Mônica Sousa

Adriana Salles Gomes

20 Julho 2017 | 15h00

Como foi anunciado, em 2018, veremos a Turma da Mônica em carne e osso na telona duas vezes. Em um filme, os personagens clássicos, as crianças na faixa dos 6 a 7 anos de idade, irão dos quadrinhos para os cinemas; em outro, será a vez de a Turma da Mônica Jovem, os adolescentes em estilo mangá, fazerem o mesmo. Enquanto você lê este blog, há equipes trabalhando nos dois projetos.

A obra do brasileiro Maurício de Sousa repete, assim, uma jornada que vimos acontecer com a turma de bruxinhos da J.K. Rowling e a turma de super-heróis da DC Comics, entre outros. Trata-se da materialização – e, portanto, do fortalecimento – de modelos femininos fortes, o contraponto às princesas e às Barbies de costume. Pesquisadores vêm estudando o grande impacto, sobre as mulheres, de personagens femininos fortes como a Hermione e a Mulher Maravilha, impacto esse bastante ampliado quando elas foram incorporadas pelas atrizes Emma Watson e Gal Gadot.

O ponto similar comum entre Mônica, Hermione e Mulher Maravilha é a intenção de mobilizar. Sabemos que J.K. Rowling teve uma intenção de empoderamento feminino ao construir Hermione e outras personagens fortes. Ouvimos da atriz Gal Gadot que a dinâmica de casal igualitário entre a Mulher Maravilha e o personagem de Chris Pine foi proposital, para não haver paralelo com histórias de príncipe e princesa . E vemos a intenção de empoderamento feminino da Maurício de Sousa Produções (MSP) explicitada em 2016 no projeto Donas da Rua.

Além disso, Mônica é brasileira, e atravessa gerações, o que aumenta a identificação. Se Hermione e Mulher Maravilha já tiveram grande repercussão entre o público feminino aqui, imagine a menina do vestido vermelho.

Para entender melhor a intenção, fiz uma rápida entrevista com a Mônica Sousa, diretora-executiva da MSP, maior estúdio de animação da América Latina, com 400 funcionários diretos. Como a maioria sabe, ela é a inspiradora da dona do coelhinho azul.

Primeiro, preciso matar uma curiosidade: quanto de Mônica há na Mônica?

 Quando criou a Mônica e a Magali, meu pai reproduziu os nossos comportamentos: minha irmã sempre foi meiga e comilona e eu sempre bravinha. Quando eu era pequena, realmente, se me tiravam do sério, eu dava coelhadas. O sansão existiu na vida real, meu pai comprou em uma feira, mas ele era amarelo.

Eu venho de uma família matriarcal, de mulheres muito fortes, que sempre foram respeitadas e tomavam as principais decisões, e não podia ser diferente comigo. Meu pai nunca me limitou por meu gênero. Eu não levava desaforo para casa, assim como a personagem, e nunca ouvi de meus pais que aquele não era um comportamento feminino, por exemplo. Mas meu pai sempre deixou bem claro que a personagem e eu éramos diferentes, para eu não ficar me achando mais forte do que era [risos].

 


Falando em empoderamento feminino, o fato de ser Turma da Mônica e não Turma do Cebolinha é interessante, não?

O curioso é que o quadrinho começou, na verdade, apenas com os personagens masculinos, e recebia o nome de “Tirinha do Cebolinha”. O público pediu personagens femininos e aí meu pai se inspirou nas filhas. E a Mônica foi fazendo cada vez mais sucesso. Quando a revista foi criada, quiseram que se chamasse Turma da Mônica, e não Turma do Cebolinha. Ele trabalhava na sala de casa; crescemos vendo ele desenhar os personagens. Quando a Mônica apareceu pela primeira vez, em 1963, eu tinha 4 anos, mas não me dei conta que tinha servido de inspiração para a criação de um personagem. Só descobri ao acompanhá-lo no programa da Hebe Camargo, quando tinha entre 5 e 6 anos de idade [risos].

 A gente conhece a Mônica criança e a Mônica jovem. Já vi matérias com o Maurício falando de planos para uma Mônica madura. Mas, por enquanto, você é a Mônica adulta, mulher. Qual é a história dessa Mônica número 3, executiva que toca a internacionalização? 

 Comecei minha carreira aos 18 anos como vendedora na Lojinha da Mônica, onde aprendi muito com o público e me encantei com o lado comercial. Não queria ter espaço na empresa apenas por ser filha, queria mostrar o meu valor como profissional. Trouxe bons contratos para a empresa e fui crescendo com isso: depois da lojinha, fui gerente de produto em alguns dos segmentos, depois assumi a direção do departamento comercial e, então, a direção-executiva.

 E você está liderando dois desafios imensos, a da transformação digital e o da internacionalização, simbolizadas pela Mônica Toy, que está fazendo o maior sucesso no YouTube…

Isso mesmo. Hoje respondo pela área de licenciamento, que gera 90% do nosso faturamento – temos mais de 3.000 produtos com 150 empresas brasileiras –­­, por animação, por novos projetos e por digital. Por meio do digital, estamos nos internacionalizando mais, inclusive, crescendo em audiência nos Estados Unidos, México e Rússia.

Acredito que se minha xará Mônica amadurecesse ela seguiria igual, sem se limitar por seu gênero e servindo de exemplo para que as meninas realizem seus sonhos.

O filme da Mulher Maravilha fez muito sucesso recentemente com uma pegada considerada feminista, assim como, em Harry Potter, o brilho da Hermione é associado ao empoderamento feminino. Vocês estão prestes a lançar filmes live action e pode acontecer o mesmo. Em sua visão, em que medida role models da ficção influenciam as pessoas na vida real?

Estamos com muitas expectativas em relação ao live action! Nossa empresa conversa com as famílias há mais de 50 anos e o tempo todo ouvimos relatos de adultos que cresceram e perseguiram seus sonhos a partir de nossas histórias em quadrinhos e animações. Eu acredito que personagens de ficção são uma importante fonte de inspiração para as crianças – sejam heróis e heroínas, como a Mulher Maravilha, sejam outros personagens.

A Mônica e a turma têm muito a contribuir com a educação das crianças em geral, e especialmente ajudando-as a entender a importância do diálogo sobre o empoderamento das mulheres na sociedade.

 Você pode compartilhar algum relato de empoderamento atribuído à Mônica?

 Todos os relatos me emocionam e nos motivam a seguir com nosso trabalho, mas fiquei especialmente tocada com um depoimento de uma mulher que criou os filhos e, só depois, conseguiu se alfabetizar – lendo nossos quadrinhos. Poder ler lhe deu autonomia, algo que é fundamental.  

 Por que vocês criaram o projeto Donas da Rua?

Para contribuir ainda mais com o diálogo do empoderamento feminino. É mais que um projeto, é uma crença da Mauricio de Sousa Produções e minha em particular. Acreditamos que meninos e meninas podem aprender a conviver respeitosamente desde cedo. Nosso objetivo com o projeto é falar sobre a importância de um mundo com mais igualdade desde a infância.

  A Mônica já nasceu empoderada e agora vocês querem que outras meninas nasçam assim?

 Exato, o projeto se baseia em algo que sempre fez parte do nosso DNA, porque personagem Mônica já nasceu empoderada, desde quando apareceu pela primeira vez na Tirinha do Cebolinha. Mas, a partir da aproximação com a ONU Mulheres surgiu a ideia de trabalharmos a questão da igualdade de gêneros desde cedo, desfazendo estereótipos, mostrando exemplos de mulheres bem-sucedidas nas mais diferentes profissões, de mulheres que fizeram história. Acreditamos que disseminar projetos assim, envolvendo funcionários, clientes e parceiros, é uma forma de conseguirmos um mundo melhor.

 Como vocês estão fazendo isso? 

Uma das iniciativas foi criar uma plataforma para o projeto dentro do site da Turma da Mônica. Ali nós começamos, por exemplo, o “Donas da Rua da História”, que nasceu após a divulgação de um estudo na revista Science, apontando que as meninas começam a se sentir inferiores e menos inteligentes que os meninos a partir dos 6 anos de idade. Isso tem uma influência muito grande na sociedade, porque elas crescem achando que os papéis e profissões importantes são só dos homens.

Então, o “Donas da Rua da História” veio retomar nomes de mulheres que se tornaram referências na história do mundo, para que meninas tenham exemplos femininos para se inspirarem e para que se sintam confiantes e capazes.

Na plataforma, as personagens da Turminha assumem identidades de personalidades femininas como Kathrine Switzer, primeira mulher a correr a Maratona de Boston; Dorina Nowill, criadora da Fundação para o Livro do Cego no Brasil;e a cientista Marie Curie, primeira pessoa que ganhou dois prêmios Nobel (em Física e Química), entre outras.

Outra linha de atuação são nossas ações voltadas para a participação da menina no esporte. Ao entrar na puberdade, muitas meninas deixam de praticar esportes e, quando meninas deixam o campinho, o mundo perde potenciais líderes. Todos perdemos. Por isso, realizamos o Soccer Camp em parceria com o Pelado Real F.C., que incentiva o futebol feminino. Como a inclusão é ponto crucial das ações, meninas que não podem pagar têm a inscrição custeada por financiamento coletivo. A segunda edição acontece agora em julho.

Mais iniciativas virão para atingir primeiramente as crianças, porque acreditamos que precisamos mudar as vidas desde o início. Mas queremos falar com adolescentes e adultos também, já que nossos personagens são queridos por várias gerações.

 O projeto interfere de algum modo na produção dos quadrinhos?

 Sim, sem dúvida. Por exemplo, nós realizamos uma oficina com a ONU Mulheres para nossos roteiristas e já estamos tendo mudanças nas histórias em quadrinhos, animações e filmes. Acreditamos que essa é uma atitude que vem de dentro.  

 E como é a equidade de gênero na empresa Mauricio de Sousa Produções?

 É uma empresa que acredita na força da mulher. Hoje, temos equilíbrio entre gêneros nos cargos gerenciais, por exemplo; somos signatários da ONU Mulheres.

 Alguns grupos feministas que citam a Mônica como um ícone do empoderamento feminino, mas outros dizem que, por ela ser apresentada como dentuça e gordinha, ou por ter características de liderança supostamente masculinas (liderança pela força), a Mônica distorce a causa. Como você avalia esses dois extremos de percepção?

 Não podemos perder de vista que a Mônica e os outros personagens são crianças de na faixa dos 6 a 7 anos, e se comportam como tal. Mas temos evidências de que a personagem se transformou em ícone de força feminina no Brasil, sim, e que é vista por muitos como símbolo da luta das mulheres por oportunidades iguais a dos homens.

 Quão necessário é o esforço coletivo em prol do empoderamento, em sua opinião? Neste blog mesmo vemos comentários – alguns até de mulheres – achando que a luta por equidade é um exagero…

Sou diretora-executiva da MSP, mas sei que ainda represento uma minoria no mundo corporativo. E é por esse e outros contextos que queremos cada vez mais atrelar a imagem da Mônica a de uma personagem empoderada e cheia de si.

 

Bacana, não é?! É claro que a influência positiva da Mônica vai depender sobre as meninas dependerá muito do roteiro dos filmes. Por exemplo, a pesquisadora Michele Fry diz que a força da Hermione vem dos fato de ela ser tão importante quanto o protagonista masculino; de não ser estereotipada (como são as mulheres nas novelas brasileiras, por exemplo), por não depender de personagens masculinos que a salvem, e por não ser idealizando – tendo tanto qualidades como defeitos.

A escritora Meredith Cherland diz que a pluralidade de atributos da Hermione (a gozadora, a prestativa , a capaz, a emocional, a inteligente) é que a tornam uma menina/mulher forte, pois mostra que dá para ser tudo isso sem perder a si mesma. Mas, como disse a Mônica Sousa, a MSP realizou uma oficina com a ONU Mulheres para seus roteiristas e já há mudanças nas histórias em quadrinhos, animações e filmes. Então tenho as melhores expectativas.

Disclaimer: Gosto tanto da Turma da Mônica que, já adulta, comprei para mim uma boneca da Mônica jovem.