O custo de uma mãe em casa

O custo de uma mãe em casa

Uma conversa sobre o resultado econômico de uma mãe que fica em casa para cuidar dos filhos e das tarefas domésticas

Adriana Salles Gomes

07 Julho 2017 | 14h03

O título desta coluna não é original: ele parafraseia o título do ultimo texto do colega Gustavo Cerbasi na revista Época – “O valor de uma mãe em casa”. Isso porque, com todo o respeito que o economista merece, venho discordar dele quando louva o “resgate dessa tradição”. E não por um feminismo vociferante da minha parte – inclusive porque, apesar de ser tom compreensivo em relação ao fato de que o “mercado de trabalho precifica … a mulher paga pelo risco associado ao gênero ganhando menos”, em dado momento, ele celebra a opção “pai em casa” também. Minhas razões para a discordância têm matiz econômico.

Meu primeiro ponto de desavença diz respeito ao cálculo que Cerbasi faz do salário de uma mãe em casa: “Não é exagero afirmar que uma mãe em casa vale em torno de R$ 10 mil a R$ 12 mil por mês. A família não percebe esse valor na conta, mas em ganho de bem-estar. Torna-se uma família mais rica, com filhos mais bem-educados”. Achei um salário muito baixo, que ignora os trabalhos de gestão e de liderança. Um estudo do Hay Group de remuneração em organizações sem fins lucrativos, publicado em 2012 pela Época Negócios, dizia que o salario mensal médio de um diretor-executivo de ONG era R$ 22.439,00. Ou seja, o cálculo não pode ser a soma as médias salariais de serviços como o de babá, cozinheira, lavadeira, passadeira, motorista, faxineira e professora particular, como Cerbasi fez, uma vez que uma mãe (ou um pai) em casa cria impacto, como uma ONG.

O segundo ponto de desavença é que, pela descrição dele, o trabalho de uma mãe em casa equivaleria ao de uma ONG. Acho que não. Ok, talvez essa seja uma questão com um grau de subjetividade alto demais, mas vou arriscar dizer que não, seguindo o raciocínio econômico do Cerbasi. Eu enxergo criação de valor no fato de os filhos serem mais bem-educados. Se os filhos ficam mais capacitados para o trabalho e, portanto, com maior potencial de renda futura e de independência financeira em relação aos pais, isso reverte em menos custos para a organização familiar no longo prazo e, portanto, gera lucro potencialmente. Então, mãe ou pai em casa deveriam receber o que recebe um diretor-executivo do mercado geral, que era R$ 35.836,00 mil por mês nos dados de 2012 do Hay Group.

Agora entro na discordância essencial. O leitor sabe o que é custo de oportunidade? Trata-se do custo de uma oportunidade a que você renuncia e, na prática, é calculado como a soma dos benefícios que você teria se tivesse aproveitado a tal oportunidade. Entram na conta benefícios sociais, de saúde etc. O economista Michael Madowitz, com dois coautores, montou, em 2016, uma calculadora dos custos escondidos de uma mãe que deixa de trabalhar para ficar em casa – isso lá nos Estados Unidos. Quem tiver interesse pode ler o texto, em inglês, aqui, mas, resumidamente, ele descobriu que uma professora de ensino fundamental que fica cinco anos em casa, não perde os US$ 220 mil de salário que ganharia nesse período (lá professor ganha US$ 44 mil por ano). Ela perde 3,2 vezes isso, porque interrompe o ritmo de aumento salarial, compromete as contribuições para a aposentadoria e outros benefícios. Se olhar para sua renda da vida inteira, ela vai ganhar US$ 706,7 mil a menos do que ganharia na vida toda (ou 20% a menos), o que não é bom nem para ela, nem para a organização familiar. Esse é seu custo de oportunidade, significativamente maior do que o gasto com creches, babás ou escolas em período integral nos Estados Unidos (e a diferença há de ser maior ainda no Brasil, onde a mão de obra é mais barata).


Um aspecto importante a destacar é que o custo de oportunidade não é definido só tem termos monetários. Qualquer coisa a que se atribui valor pode ser contabilizada como custo de oportunidade. Por exemplo, mulher em casa costuma pagar custos sociais altos, um custo no casamento (tendo um gap em relação ao companheiro) e também um custo de conhecimento – tanto que é dificílima a reinserção no mercado de trabalho. O custo de oportunidade não equivale só aos cinco anos planejados para a dedicação mais exclusiva à maternidade. Eu tenho duas amigas muito queridas nessa situação, uma com formação de engenheira e carreira internacional, outra administradora graduada pela FEA-USP e fluente em inglês, e simplesmente elas não estão conseguindo voltar. Com as mudanças cada vez mais rápidas no modo de fazer negócios, parar e voltar é crescentemente “desafiador”, para usar um adjetivo ameno.

Agora vou entrar na parte mais importante de todas, à qual eu sei que o grande Cerbasi está bem atento: a capacitação dos filhos. A Universidade Harvard fez um estudo entre 2002 e 2012 em 25 países, com 50 mil pessoas entre 18 e 60 anos, e descobriu o seguinte: filhas de mães que investem na carreira ganham 23% mais do que as filhas de mães caseiras, e obtêm melhores cargos quando adultas.  E os filhos homens, quando crescidos, passam 7 horas e meia a mais por semana com seus respectivos filhos e 25 minutos a mais em tarefas domésticas, conferindo maior eficiência à organização familiar. Em 2010, outro estudo, uma meta-análise de 69 estudos feitos nos últimos 50 anos, mostrou que filhos (de qualquer gênero) de mães que trabalham fora vão particularmente bem na escola e têm menos tendência a depressão e ansiedade, o que os torna mais aptos ao trabalho (confira, em inglês, aqui no New York Times).

Não é da minha conta se uma mulher quer trabalhar fora ou ficar em casa. É uma decisão de cada uma e eu sei do poder de realização pessoal da maternidade. Mas, do ponto de vista exclusivamente econômico, o resgate da tradição não me parece bem-vindo. Em 30 anos, toda essa conversa estará superada – como diz Jack Ma, o CEO da gigantesca Alibaba, todos trabalharemos quatro horas por dia, quatro dias por semana, e a criação dos filhos vai ser supercompatível com o trabalho, como deveria ser desde sempre. A tradição não será só resgatada para as mulheres; a paternidade será resgatada para os homens. Mas, enquanto a previsão de Ma não vira o padrão, é preciso aceitar que já se foi o tempo da “Mulher Ou”, que faz isso ou aquilo; agora a regra é a “Mulher E” (essas expressões são da Ana Fontes, da Rede Mulher Empreendedora).