Heroínas negras inspiram a desafiar o status quo

Heroínas negras inspiram a desafiar o status quo

Livro de cordel de Jarid Arraes vem reparar a falta de modelos heróicos inspiradores para mulheres – e, especialmente, para mulheres negras

Adriana Salles Gomes

01 Junho 2017 | 16h46

Você gosta de literatura de cordel? Eu particularmente  considero algo extremamente século 21: é rap por escrito (experimente ler ritmado em voz alta!), é storytelling, é mangá – sim, a xilogravura, ilustração típica do cordel, é o perfeito mangá brasileiro. Sei que, se eu fosse a CEO de uma empresa, preferiria contar a história corporativa com cordel em vez de publicar um coffee table book – meus stakeholders estrangeiros ficariam admirados, certeza. E se eu fosse fazer quadrinhos de super-herói à moda Marvel ou DC, faria quadrinhos bem originais, com visual de cordel.

As empresas infelizmente ainda não tiveram esse insight, nem os quadrinistas de heróis que eu saiba, mas o cordel está nascendo hoje no seio do movimento feminista. Hoje é o lançamento do livro de uma jovem cordelista feminista, Jarid Arraes. Em Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis, ela resgata a trajetória de mulheres que desafiaram não apenas o machismo como também o racismo e, por isso, podem ser chamadas de heroínas com propriedade.

O livro de Jarid tem tudo a ver com um blog que aborda assuntos referentes a mulheres, trabalho e vida pessoal. Sabe por quê? Porque o grande personagem do livro é a ação de contrariar o status quo. É exatamente o que a maioria das mulheres precisa fazer hoje em termos profissionais e pessoais a fim de conseguir a igualdade de oportunidades. Ou não é? A inspiração para fazê-lo, com histórias muito mais difíceis do que as nossas, é valiosa.

Heroínas Negras começa com a explicação do que é um herói, feita pela prefacista Jaqueline Gomes de Jesus, professora de psicologia do Instituto Federal do Rio de Janeiro:“Os heróis são a projeção do melhor de nós como seres humanos, do que todos deveríamos buscar como gente”. Ou seja, quando não há heróis do sexo feminino ou heróis negros, o que acontece com pessoas do sexo feminino ou negras? O fardo a carregar fica muito mais pesado. Faltam-lhes modelos e inspiração para superar as agruras habituais da vida e as agruras extras dos “desempoderados” em geral.

Então, para reverter isso, a autora selecionou 15 heroínas negras que estavam “relegadas ao silêncio, à invisibilidade” e resolveu divulgá-la por meio do nosso rap-mangá-storytelling. É uma leitura válida para todas as mulheres que leem esta coluna, para os departamentos de recursos humanos, para os líderes de equipes – e, mais ainda, é claro, para quem for negro. Destaco duas heroínas que desafiaram o status quo a seguir, com suas histórias resumidas e trechos do cordel de Jarid: Antonieta de Barros e Eva Maria do Bonsucesso.

 Antonieta de Barros foi uma líder e empreendedora catarinense que lutou contra o racismo e o machismo. Nascida em Florianópolis em 1901, foi eleita para a Assembleia Legislativa de Santa Catarina, tornando-se a primeira mulher a assumir o cargo de deputada no estado e a primeira deputada estadual negra em todo o Brasil. Antonieta atuava como professora, escritora e jornalista. Fundou um curso, bem como fundou o jornal “A Semana” entre 1922 e 1927, e ali falava de seus ideais contra a discriminação de gênero e racial. Em 1937, escreveu o livro Farrapos de Ideias, com o pseudônimo Maria da Ilha. Anualmente, a Assembleia Legislativa de Santa Catarina concede a Medalha Antonieta de Barros a mulheres que combatem a desigualdade de gênero.

Tinha dezessete anos

Quando conseguiu entrar

Na escola normalista

Para mais se dedicar

Aos estudos que gostava

Querendo aperfeiçoar.

 

No entanto, é preciso

Uma coisa mencionar

Inda era os anos vinte

Quando ela foi estudar

Veja só que grande feito

Ela estava a desbravar!

 

Pois não era só mulher

O que era já difícil

Era negra num passado

De racismo, de suplício

Bem pior que atualmente

E sem sucesso propício.

 

No ano de vinte e dois

Antonieta então fundou

Um Curso Particular

Onde ela ensinou

Por toda a sua vida

Como muito acreditou.

 

Para que a população

Pudesse alfabetizar

Foi que Antonieta fez

Esse curso prosperar

Cheia de dedicação

Colocou-se a lecionar.

 

Eva Maria do Bonsucesso era uma negra alforriada que empreendia como quitandeira no Rio de Janeiro (RJ). Em 1811, montou seu tabuleiro numa calçada na região de Bonsucesso, quando uma cabra tangida por um escravo lhe levou uma penca de bananas e um maço de couves. Eva perseguiu a cabra com uma vara na tentativa de recuperar suas mercadorias quando deparou com o dono do animal, o senhor branco José Inácio de Sousa, que, indignado, a esbofeteou. Eva revidou a agressão e foi parar na Justiça, mas as 30 pessoas presentes depuseram de forma unânime a seu favor. Dessa forma, Eva foi um raríssimo exemplo de uma mulher negra que conseguiu vencer um caso contra um senhor branco, que acabou sendo preso.

Foi no século dezenove

Julho, dia dezesseis

Mil oitocentos e onze

Quando algo grande fez

Pela garra de lutar

Do direito conquistar

Com tamanha sensatez.

 

Nesse dia de trabalho

Arrumou seu tabuleiro

Com as frutas e verduras

Para conseguir dinheiro

Mas um bicho apareceu

Foi aí que aconteceu

Todo seu desenroleio.

 

Uma cabra correu solta

E as bananas agarrou

Foi saindo na carreira

Mas a Eva se arretou

E já foi saindo atrás

Bem nervosa por demais

Pela cabra que a roubou.

 

Segurando numa vara

Eva a cabra perseguiu

Mas puxou foi o nervoso

De um branco que isso viu

Sendo o dono do animal

Quis sair de maioral

Mas a Eva reagiu.

 

José Inácio de Sousa

Era o nome do senhor

Que sentiu de achar ruim

Sem fazer nenhum pudor

Resolveu lhe estapear

Sem ao menos perguntar

O motivo causador.

 

PS: O lançamento do livro acontece hoje às 19h30 no Shopping Frei Caneca de São Paulo – na Blooks Livraria.