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Mulheres avançam na tecnologia no Brasil

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Mulheres avançam na tecnologia no Brasil

Recém-encerrada, a Campus Party Brasil mostrou que as mulheres já respondem por quase metade da participação; a evolução se deve aos role models e ao ativismo

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Adriana Salles Gomes

07 Fevereiro 2017 | 15h17

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A Campus Party Brasil completou dez anos na edição encerrada no último domingo lá no Anhembi, em São Paulo. Em seu primeiro ano (2008), 100 mulheres a frequentaram – o equivalente a 3% do total de campuseiros. Em 2017, foram cerca de 3.200 mulheres, 40% do total. Um mega aumento, QUASE MEIO A MEIO. Houve avanço até em relação a 2016, quando 2.880 mulheres deram as caras por lá (36% do total). Isso sem contar as palestrantes, bem representadas nos vários palcos.

(Esperem, daqui a pouco explico a foto acima.)

Mesmo que não traduza empregos ou renda, esse é um indicador  importante do futuro próximo e uma conquista e tanto. Em primeiro lugar, a tecnologia funciona como um acelerador para quase tudo, inclusive para derrubar barreiras e igualar oportunidades para homens e mulheres. Em segundo lugar, como o trabalho de tantas organizações não governamentais já mostrou, ao impactar uma mulher, você não muda só a vida dela, mas costuma mudar a vida de toda a sua família e da comunidade de que ela participa – o efeito de rede é maior do que no caso dos homens. Em terceiro lugar, porque a tecnologia, especialmente a digital, está fazendo diferença em qualquer setor de atividade que a gente observe, da medicina à indústria, da educação aos serviços e à agropecuária. Estar distante da tecnologia digital, em última análise, significa estar distante da economia do século 21.

A conquista merece ser celebrada ainda (ou talvez principalmente) porque representa, no Brasil, o sucesso do esforço de mobilização feminina no contra um quadro adverso. Apenas 15,53% dos alunos de cursos relacionados à computação são mulheres; 79% das alunas dos cursos relacionados com TI desistem no primeiro ano e 41%das mulheres que trabalham com tecnologia acabam deixando a área, em comparação com apenas 17% dos homens.

Não foi só lá fora se formaram vários grupos de mulheres de TI (PyLadies, MariaLab, TechMums, Code Girl etc.); aqui temos vários, entre os quais a plataforma MasterTech, o blog Meninas na Computação, a PrograMaria (onde peguei os dados acima) e o programa 50+. E os role models não só americanos, como as executivas Ginni Rometty (CEO mundial da IBM) e Sheryl Sandberg (COO do Facebook); temos role models brasileiros, ainda que menos midiáticas, como as empreendedoras tech Camila Achutti, a Iana Chan e a Tássia Chiarelli.

(Ainda não chegamos à foto acima.)

Cito esses casos específicos porque os conheci mais de perto no ano passado, no Fórum Empreendedoras, e vou contar um pouquinho do ativismo delas e do porquê de serem role models.

ROLE MODELS E ATIVISTAS

Camila-Achutti_1-e1440789730476Camila é a role model por excelência, articulada, divertida, inspiradora até não poder mais. Formada em ciência da computação pelo IME-USP e com estágio disputados na bagagem (no Google em Mountain View e no CTH – Centro Tecnológico de Recursos Hídricos e Hidráulica do Estado de São Paulo), ela fundou duas startups promissoras. A Ponte 21, que tem o Google entre seus clientes e promete acelerar a inovação das empresas (inclusive as estabelecidas) criando um MVP (produto mínimo viável, na sigla em inglês) em oito semanas. E a MasterTech, uma plataforma de desenvolvimento contínuo de habilidades do século 21 com cursos imersivos em tecnologia, marketing e design, coisas tipo internet das coisas, scrum etc., presenciais e online, para pessoas físicas e corporativos.

Do lado da mobilização, a Camila agita as coisas por meio do blog Mulheres na Computação, que é referência para muita gente nessa área e é embaixadora do Technovation Challenge Brasil, um desafio de tecnologia e empreendedorismo só para garotas.

iana-chan-500x583Iana, jornalista, é role model porque fez a passagem – diferentemente da Camila, que era filha de programador, Iana cresceu num sítio e migrou para o mundo da tecnologia. E ela é Community Manager da Liga Ventures, uma aceleradora totalmente dedicada a conectar startups e grandes empresas.

Como mobilizadora, Iana fundou, sem fins lucrativos, a PrograMaria, iniciativa que visa empoderar mulheres por meio da tecnologia e da programação trabalhando três pilares: inspirar, debater (a falta de mulheres no ambiente tecnológico) e fazer aprender.

lattes_Tassia-e1469041582713Tássia, gerontóloga, é role model porque foi uma das ganhadoras do concorrido prêmio Mulheres Tech em Sampa de 2015, faz mestrado em gerontologia pela USP e fundou a startup OPA – Orientação Particular e Acompanhada, que atende ao público que envelhece, transformando seu tempo disponível em oportunidade, como diz seu slogan (e, assim, soube ligar a tecnologia a uma megatendência demográfica). O que a OPA faz é organizar eventos com idosos, visitas a museus, idas ao teatro, cursos, palestras Outra coisa bacana da Tássia é ela estar indo além, estudando as relações sociais dos idosos no contexto do Facebook.

No aspecto ativismo, Tássia lidera o projeto “Mulheres 50+ em Rede”, um curso de capacitação digital gratuito para empreendedoras a partir de 50 anos de idade.

(E a foto lá do alto?)

OBSTÁCULOS E
O QUE FAZER A RESPEITO

Em um debate durante o Fórum Empreendedoras 2016, as três deixaram claros os obstáculos das mulheres na área tecnológica: (1) elas têm de provar competência dez vezes maior do que os homens para se firmar nas carreiras de tecnologia e ainda ganham 80% do que eles ganham; (2) quando um homem erra, é normal; quando uma mulher erra, ela compromete todas as mulheres, o que representa uma enorme pressão; (3) há dois problemas principais: dificuldade de inserção e de dificuldade de ascensão.

As medidas para vencer esses obstáculos têm de ser gerenciais e comportamentais. Entre as gerenciais, estão o incentivo à contratação de profissionais mulheres para os cargos de TI (por exemplo, a presidente da Microsoft Brasil, Paula Bellizia, exige que haja sempre mulheres entre os candidatos a cada vaga), investimentos financeiros para as mulheres em TI (bolsas para estudarem, como faz o Women in Technology Summit, ou premiações por desempenho e conquistas).

Do lado comportamental, o ambiente deve ser receptivo à diversidade, acolhedor até, em vez de favorecer apenas o tipo nerd Star Trek. E, mais importante, mulheres – e homens – não devem silenciar diante das piadinhas e manifestações sexistas contadas no meio tech (há quem relate até cenas de bullying), vencendo o medo de ser desagradável,de parecer politicamente correta demais, ou mal-humorada, de ser vista como alguém que se vitimiza ou patrulha.

Por exemplo, Camila costuma responder às piadinhas que ouve contando histórias de mulheres bem-sucedidas em tecnologia como a austríaca Hedy Lamarr (1914-2000), a famosa atriz de Hollywood da foto de abertura (AGORA, SIM!) que é considerada a mãe da telefonia celular.

Sabia dessa? (Eu não sabia até há pouco tempo.)

MAIS INSPIRAÇÃO

A leitora (ou o leitor) quer fazer como a Camila e se posicionar em relação aos comentários estereotipados e sexistas que tornam o ambiente de trabalho inóspito para mulheres, especialmente na área tech? Se sim, a bela Hedy Lamarr é um prato cheio. Ela desenvolveu, com George Antheil, o que chamava um “sistema de comunicações secreto” – umaequipamento transmissor de rádio que, sincronizado com outro receptor similar, podia ir mudando de freqeência se ambos estavam sincronizados na época da Segunda Guerra Mundial. Isso permitia evitar que o inimigo pudesse receber a comunicação e é considerado a tecnologia-base para o GPS, o wi-fi e a telefonia celular como um todo.

Mais um item para seu repertório? Ada Lovelace (1815-1852), condessa e filha do célebre Lord Byron, é considerada a primeira programadora do mundo, ou seja, a primeira pessoa (não mulher, pessoa) a casar as capacidades matemáticas de máquinas computacionais com as possibilidades de aplicação com imaginação.Ela fez um complemento para o Mecanismo Analítico de Babbage escrito em 1843, em que delineou quatro conceitos que moldariam o nascimento da computação moderna um século mais tarde. O primeiro dos conceitos foi o de uma máquina capaz não só de executar tarefas pré-programadas como de ser reprogramada para executar uma gama praticamente ilimitada de operações – qualquer semelhança com o computador moderno não é coincidência.

Telefonia celular e computador têm os dedos de mulheres. Fora isso, você pode ir assistir ao filme Estrelas Além do Tempo, que entrou em cartaz, e a série Bletchley Circle na Neflix, que não é real, mas inspirada em mulheres analistas  reais do Bletchley Park, o lugar onde os ingleses decifravam os códigos dos alemães durante a Segunda Guerra.

Eu estava na Campus Party e senti na pele a mudança – quantitativa e qualitativa. Não só as mulheres compareceram em peso, claramente, como sua presença se fazia notar. Silenciosamente (ou nem tanto), as coisas estão mudando.

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