“Pelé vs Romário” e o custo da cesta básica

“Pelé vs Romário” e o custo da cesta básica

Quando a cesta básica era mais cara, em 1977 ou em 2008? Quem fez mais gols, Pelé ou Romário? Você sabe a relação entre essas duas perguntas?

O Estado de S. Paulo

30 Outubro 2015 | 11h03

Andres Rojas* e Bruno Oliva

Em 1° de outubro de 1977, segundo a maioria dos especialistas, o maior jogador de futebol encerrava sua carreira. Pelé participou de 1.376 jogos e fez 1.285 gols: uma média de 0,93 gols por jogo[1]. Naquele mês, o custo da cesta básica na cidade de São Paulo era de Cr$ 607,84[2].

Já em março de 2008, Romário pendurou as chuteiras. Segundo suas contas, teria feito pouco mais de 1.006 gols. Ao final daquele mês, a cesta básica era adquirida por R$ 223,90.

Duas perguntas em relação a estes valores podem ser feitas: (i) o custo da cesta básica aumentou?; (ii) quem marcou mais gols, Pelé ou Romário?


A primeira pergunta ninguém é capaz de responder com certeza sem corrigir os valores monetariamente. A resposta dada para a segunda costuma ser, de primeira, Pelé.

A motivação para a dificuldade de se responder à primeira pergunta deve-se às mudanças observadas na economia desde quando Pelé parou de jogar profissionalmente, que fez do Brasil uma verdadeira caixinha de surpresas. Neste período, a inflação no país foi de assustadores 67 trilhões por cento, segundo o IPC-Fipe. Como consequência dessa várzea monetária, o brasileiro viu o nome de sua moeda mudar cinco vezes, com 9 zeros cortados e posterior divisão por 2.750 (!?!?!), resultado de diversos planos de estabilização. Sendo assim, ninguém se atreve a responder, de bate pronto, quando a cesta básica era mais cara.

No entanto, com um pouco de paciência, utilizando índices de preços adequados e a conversão das moedas no período, podemos resolver a dúvida. O valor da cesta básica de outubro de 1977, corrigido pelo IPC-Fipe, corresponde a a pouco menos de R$ 100 a preços de março de 2008. Isto é, o custo da cesta básica no mês em que Pelé encerrou a carreira é inferior ao de março de 2008, descontando a inflação. Desta forma, podemos responder, com alguma convicção, que o custo da cesta básica em São Paulo era menor quando Pelé pendurou as chuteiras.

O processo utilizado para a comparação dos valores da cesta básica entre dois períodos de tempo é muito comum para vários outros valores da economia. Em vez de utilizar os valores nominais ou correntes da época, costuma-se deflacioná-los utilizando algum índice de preço, obtendo, desta forma, valores “reais”. A partir daí é possível a comparação dos valores observados[3].

Voltando à segunda pergunta, ao responder olhando apenas os gols marcados (que é o que se costuma fazer) afirmaríamos que Pelé teria feito mais gols que Romário. No entanto, desta forma estaríamos apenas fazendo uma comparação nominal e não real. Ao proceder dessa maneira não consideramos as mudanças no futebol, assim como fazemos com os valores da economia. Além disso, as estatísticas dos gols de ambos são um pouco controversas, colocam no mesmo saco tentos marcados em amistosos, jogos festivos e outros não relacionados ao futebol profissional – como os gols de Pelé nas forças armadas e os de Romário nas categorias de base.

Quem fez mais gols, Pelé ou Romário? (Paulo Pinto/Acervo Estadão)

Isto é, temos que definir duas questões antes de responder quem foi o maior artilheiro: (i) como comparar tal critério ao longo do tempo e ii) qual o critério para o classificar quem é mais artilheiro.

Uma forma razoável “deflacionar” os gols marcados é considerar o número de gols por jogo em cada época. De 1957 a 1974, a média de gols por jogo nos Campeonatos Paulistas, principal competição disputada pelo Rei, foi de 3,12. Já de 1986 a 2007, anos em que o Baixinho estava em atividade, a média de gols por jogo do Carioca, foi de 2,54, muito semelhante à média do campeonato brasileiro no mesmo período. Ou seja, a média de gols por jogo era 23% superior quando o Rei jogava e não é preciso ser ganhador do Nobel de Economia para imaginar que um mesmo jogador teria maior probabilidade de balançar as redes do adversário entre as décadas de 50 a 70 do que nas seguintes.

Voltemos para a definição de artilharia. Não parece razoável, para comparar os dois craques, computar os tentos marcados em jogos de “casados contra solteiros” no churrasco de domingo. Considerando apenas jogos oficiais, Pelé teria feito 756 gols em 827 partidas e o Romário 771 em 993 pelejas[4]. Isto é, considerando valores nominais, Romário seria maior artilheiro. Corrigindo estes valores pelo número médio de tentos por partida, a diferença aumentaria ainda mais (771 contra 615, que é o número de gols que o Pelé teria feito caso jogasse entre 1986 e 2007).

Os defensores do Rei poderiam continuar insistindo, alegando que ele era mais eficiente, com média de 0,91 gols por jogo oficial contra 0,78 do Baixinho. Esta comparação, porém, é novamente de caráter nominal e não consideraria a evolução do futebol. Se ajustarmos os valores pela média de gols por período, Pelé teria feito 0,74 gols por partida, menos do que Romário.

Mesmo (os poucos) fãs que ficaram convencidos de que Pelé não foi o maior artilheiro, ainda devem argumentar: “Esses ortodoxos só mostram números frios!!! Onde fica a genialidade? Cadê o brilho nos olhos? Não tem jeito, ele é o maior de todos os tempos e não se fala mais nisso!”. Seria isso verdade mesmo?

Nesse ponto surge a discussão do “viés saudosista”, sentimento vívido no coração daqueles de cabelos brancos e alma pura Esse fenômeno é particularmente acentuado em esportes coletivos e de confronto (onde o desempenho de um atleta depende, fundamentalmente, do que seu oponente faz[5]).

Nos esportes individuais e sem confronto, tais como atletismo e natação, o tempo realizado por prova define qual atleta venceu uma competição e, além disso, permite a comparação entre resultados que não foram disputados simultaneamente. Poucos questionam a supremacia histórica de Usain Bolt nos 200 metros rasos[6], ou a Michael Phelps na natação.

Diferentemente desses esportes, o futebol não tem apenas uma medida quantitativa, como o número de gols, que possa definir qual o melhor atleta. Isto torna a discussão ainda mais complicada, além da falta de um deflator único, falta uma medida quantitativa global que reflita a qualidade do jogador de futebol[7] e que, diga-se de passagem, depende do desempenho de seus oponentes.

Como vimos, o número médio de gols por partida recuou entre os períodos analisados, resultado da evolução do futebol – ou da involução, afinal não são poucos os que, concordando com a maioria dos comentaristas de mesa redonda, acham que o futebol mudou para pior. A redução do número de tentos deve ser reflexo da maior preocupação defensiva na últimas décadas e, principalmente, da melhor preparação física dos atletas. Na década de 70, os jogadores corriam de 3 a 5 quilômetros por partida[8], enquanto atualmente esse valor é superior a 10 em alguns campeonatos europeus.

Para exemplificar a diferença, imagine se seria possível hoje, um volante, como o Clodoaldo, driblar lentamente quatro jogadores italianos no meio de campo numa final de Copa do Mundo[9]. Se um alemão driblasse algum argentino próximo ao meio de campo no final da Copa do Mundo de 2014 corria sério risco de ser degolado pelo Mascherano antes de conseguir dizer “chucrute”.

Vale dizer, muitos julgam os jogadores atuais como inferiores tecnicamente aos do passado. O fato é que não há mais espaço como antes ou, como diria o grande narrador: “É amigo, não tem mais time bobo!”

Assim, para podermos fazer qualquer comparação entre quem seria o melhor jogador de todos os tempos, deveríamos ser obrigados a levar todos esses condicionantes em consideração. Mas, então, o que explicaria a quase unanimidade em considerar o Pelé como o melhor de todos os tempos?

O mais curioso desse viés saudosista é que as percepções dos pais são transmitidas aos filhos pelos genes (não bastasse os da calvice), imortalizando mitos. É curioso fenômeno do “saudosismo do que não se conhece”.

Certa vez, lemos em algum lugar que “Cristiano [Ronaldo] não amarraria as chuteiras de Eusébio”. Imaginamos que para alguém fazer esse tipo de comparação deva ter visto alguns bons jogos de ambos. O autor da frase beira os 50 anos e não morou em Portugal na época em que o Pantera Negra jogava pelo Benfica e, como a TV à cabo não transmitia o campeonato português para o Brasil, o máximo que ele pode ter visto foram os melhores lances do craque lusitano pelo seu clube ou da Copa de 1966 pelo Youtube, quando ele comeu a bola.

Já hoje é possível ver praticamente todos os jogos eleito três vezes melhor do mundo. Ver tanto seus gols, quanto suas firulas e, principalmente, os pênaltis perdidos em partidas decisivas.

Resumindo, a comparação, além de não considerar a evolução do futebol, deve ter sido realizada olhando apenas os melhores momentos de Eusébio, o que distorce um pouco a realidade.

Para concluir, a intenção não é desconsiderar os atletas de um futebol menos competitivo, mas identificar que a comparação entre atletas de períodos muito distantes é tarefa das mais difíceis[10].


* Sócio da Ferrés Consultoria

[1] http://www.campeoesdofutebol.com.br/pele_jogos7.html

[2] Os valores da cesta básica são publicados pelo Dieese (https://www.dieese.org.br/)

[3] Importante destacar que nada é tão fácil como parece. Mesmo nesse caso, a utilização de deflatores distintos resulta em resultados díspares.

[4] A fonte da informação é Recreation Sport Soccer Statistics Foundation (RSSSF), que disponibiliza um site com inúmeras estatísticas sobre o esporte bretão (www.rsssf.com).

[5] Curiosamente, esse tipo de relação é o principal foco de estudo de um ramo da ciência econômica chamado de “Teoria dos Jogos”.

[6] Ainda assim, poderíamos considerar que o treinamento e a tecnologia envolvida tende favorecer os esportistas mais atuais, como no famoso caso do maiô na natação.

[7] A nota do seu craque preferido no Fifa 2016 não resolve o problema.

[8] Os dados foram extraídos de reportagem da revista Veja de julho de 2002 e da Placar de dezembro de 2013.

[9] Jogada que acabou no famoso gol do Carlos Alberto, com um petardo fulminante da entrada da área após passe de Pelé.

[10] Uma versão anterior do texto foi publicada pelos mesmos autores em 2009, no Blog Jumento de Troia.

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