Mercado gostaria de ver Trabuco na Fazenda, mas é cético em relação à nomeação
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Mercado gostaria de ver Trabuco na Fazenda, mas é cético em relação à nomeação

ALTAMIRO JUNIOR

31 Outubro 2014 | 13h18

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NOVA YORK – O presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco Cappi, foi um dos nomes que casou mais surpresa entre os cotados para o Ministério da Fazenda no segundo mandato de Dilma Rousseff. Discreto e culto, o executivo nunca trabalhou no governo, como outros citados, entre eles Nelson Barbosa e Henrique Meirelles, e está há mais de 40 anos no Bradesco. Apesar de agradar ao mercado financeiro, sua nomeação é vista com ceticismo.

Trabuco é próximo de Luiz Inácio Lula da Silva e não tem o perfil de um banqueiro tradicional. Ele não é dono de banco, como a família Setubal ou a Safra. Também não possui a formação comum de muitos executivos da área, em economia ou administração. Ao contrário, estudou filosofia e tem pós-graduação em sócio-psicologia pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo.

Ainda assim, no comando do segundo maior banco privado do País, tem a carreira atrelada ao setor financeiro, alvo de críticas e resistências da presidente. Uma das marcas do primeiro mandato foi exatamente o embate de Dilma para reduzir o spread bancário no País. Depois, os bancos passaram a ser chamados para participar de financiamentos à infraestrutura e ao setor elétrico, em modelos que não necessariamente agradaram às instituições.


Desde que foi eleita, Dilma fala em “dialogar” e “construir pontes”, inclusive com o setor financeiro, num provável reconhecimento de que esse canal acabou sendo cortado.

Para muitos, Trabuco é o exemplo claro e a personificação de um “jeito Bradesco” de ser: contido, discreto, eficiente e sem ostentação. Por isso, quando se começou a falar do sucessor do então presidente do banco, Marcio Cypriano, boa parte do mercado já apostava que ele seria o escolhido.

Trabuco começou a trabalhar no Bradesco como escriturário na cidade de Marília, interior de São Paulo, aos 18 anos. É a mesma cidade onde morava o fundador Amador Aguiar. Na instituição, passou por diversas agências e cargos ao longo dos anos, até ser nomeado em 1998 como diretor executivo. Em 2003, se tornou presidente da seguradora do banco, que tem sede no Rio, onde ficou até 2009, quando saiu para assumir o comando do Bradesco. É comum em descrições de Trabuco a menção de suas habilidades na área comercial, o que no competitivo mercado bancário é uma das características mais respeitadas.

Na seguradora, Trabuco conseguiu mais que dobrar o tamanho da empresa, atrair novos clientes e fazer a companhia responder por 30% do lucro do banco. Já no comando do Bradesco, ele chegou no momento em que o Itaú estava no processo de fusão com o Unibanco e, com isso, se transformou na maior instituição financeira privada da América Latina.

Para retomar a liderança perdida, Trabuco optou pela estratégia de crescimento orgânico e foi ampliando a presença do Bradesco pelo Brasil por meio da abertura de agências, atrelado ao aumento de renda da população que marcou o governo Lula. Ao mesmo tempo, teve que enfrentar o desafio do fim da administração do Banco Postal, dos Correios. De uma só vez, o Bradesco perdeu para o Banco do Brasil, que ganhou o novo contrato, seis mil pontos de atendimento.

Para compensar, Trabuco resolveu investir e, em seis meses, o banco abriu mil agências pelo País. A estratégia de expansão orgânica tem dado resultados. O banco fechou o primeiro trimestre de 2009, quando o executivo assumiu a presidência, com ativos de R$ 482 bilhões. No terceiro trimestre deste ano, em números divulgados nesta quinta-feira, os ativos do banco dobraram, chegando a R$ 987 bilhões.

Trabuco gosta de ler, é bem humorado e ao mesmo tempo firme. Como toda a diretoria do Bradesco, trabalha pelo menos 12 horas por dia, ao lado do presidente do conselho, Lázaro de Mello Brandão, em uma sala sem divisórias na sede da instituição, na Cidade de Deus, em Osasco. Normalmente chega às 6h30 da manhã por lá. Pelo estatuto do banco, Trabuco deve se aposentar em 2017. A regra diz que quem faz 65 anos tem que deixar os cargos executivos, como ocorreu com Cypriano.

* Altamiro Silva Júnior, correspondente

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