Quando as marcas vão falar sobre todas as emoções da maternidade, de verdade?

Quando as marcas vão falar sobre todas as emoções da maternidade, de verdade?

Wal Flor

19 Maio 2017 | 17h59

Eu sempre quis ser mãe. Sempre gostei de crianças. Sonhava em ter um “bebê Johnson”. Mas também quis ser independente e ter um trabalho que me trouxesse realização pessoal e financeira. Por isso a maternidade chegou mais tarde, depois dos 30. Me sentia mais madura e preparada para exercer plenamente o papel de mãe. Depois de 2 anos de muita espera, meu primeiro filho nasceu. E para minha surpresa, ele não nasceu um lindo, tranquilo, sorridente e fofo. Ele não nasceu um “bebê Johnson” como eu tinha idealizado. Pelo contrário, ele deu um trabalho danado.  Definitivamente o maior desafio da minha vida.

Foi com muita conversa com especialistas e amigos, muita leitura, muito estudo e um livro maravilhoso – “Segredo de Encantadoras de Bebês” – que descobri, por mais óbvio que pareça, que eu não estava sozinha nesta jornada. Quando idealizamos algo que não se materializa isso pode ser muito frustrante e sofrido.

Créditos: divulgação

E é isto que as marcas e a propaganda fizeram e ainda fazem em muitas situações da nossa vida. A indústria da beleza definiu um padrão estético, a indústria de margarina estabeleceu o conceito de família feliz e contente toda manhã. A indústria de bebidas alcoólicas criou um padrão de mulher gostosa e a de indústria de produtos infantis idealizou uma maternidade plena, rodeada de alegrias.


Quando um filho nasce, uma explosão de emoções será vivida na relação com os pais para o resto da vida. Medo, tristeza, raiva e nojo (limpar muito vômito e cocô é para os fortes) são sentimentos que estão muito mais presentes no dia a dia da primeira infância. Existem sensações maravilhosas na maternidade, mas a rotina é muito desgastante. Entretanto, parece que as marcas querem falar somente sobre a alegria.

Numa recente sondagem que nós da Agência Lynx fizemos com mães, cerca de 77% associaram a maternidade a um sentimento de culpa, stress, tristeza, raiva. Crescem no mundo os casos de pais que vivem picos de stress com filho, trabalho, casa.

Quando penso sobre isso sempre pergunto para as marcas: quando elas irão falar sobre a maternidade de uma maneira mais realista, de verdade?

A campanha de Johnson, que mostra a beleza de um bebê com Síndrome de Down, é comovente, faz chorar. Mas e aí, qual o aprendizado? Baby Dove fez um filme sobre mães reais. E o que mais? Um começo, ok, mas é preciso chegar mais perto. É preciso trocar mais, ser mais profundo. Manter uma conversa no digital e promover experiências reais.

Não se fala tanto de marca como “serviço”? Então que tal prestar um serviço para nossa sociedade e contribuir para que mães e pais se sintam mais acolhidos e seguros para controlar e aproveitar todas as fortes emoções da maternidade?