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Entenda a deflação

Celso Ming

18 novembro 2013 | 20:00

A inflação aleija e pode matar; a deflação, também. Depois de passar meses a fio temendo os efeitos da inflação sobre a economia, os europeus agora temem o contrário (veja o gráfico).

Primeiro, o conceito. Muita gente no Brasil acha que deflação é uma queda geral de preços apenas episódica que não dura mais que dois meses. Isso não é deflação, é inflação negativa. A deflação acontece quando os preços caem de maneira constante durante um período relativamente longo.

Os efeitos da deflação são tão ou mais perniciosos do que os produzidos pela inflação. E é mais fácil compreender a deflação pelos seus efeitos do que pelo seu conceito.

Para começar, é difícil de saber onde está a ponta do rolo, mas causas e efeitos acabam se misturando.

Uma deflação é uma tragédia para grandes devedores, porque os compromissos permanecem os mesmos enquanto preços e renda caem. Ou seja, na prática, a dívida fica mais alta. Quem, por exemplo, comprou uma casa e tem muitos anos para pagar prestações mais ou menos fixas, em caso de deflação acabará pagando mais do que vale a casa – se sobreviver financeiramente até lá. Por aí já se vê que, em tempo de deflação, a regra geral é evitar levantamento de empréstimos e a atividade bancária é prejudicada.

Numa situação de deflação, empresas e consumidores adiam compras, porque apostam em que, mais à frente, serão beneficiados pela rebaixa de preços. Menos compras e menos investimentos tendem a puxar para baixo a atividade econômica e a contratação de pessoal. É também o que vai derrubar os salários e as rendas e, por sua vez, contrair ainda mais o consumo. Em países cuja população está mais insegura em relação ao futuro, o consumo cai por uma razão adicional: pelo aumento da poupança. As pessoas economizam mais porque imaginam que, lá na frente, vão precisar de mais dinheiro. Esse é, por exemplo, um fenômeno particularmente grave no Japão.

Como a arrecadação do setor público está quase inteiramente baseada nos preços e nos valores, uma queda persistente dos preços tende a derrubar a arrecadação. O efeito seguinte é menos despesa pública, mais recessão, mais vida dura.

O risco de deflação foi o principal fator que levou e continua levando grandes bancos centrais a emitir trilhões em moeda nacional. O Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) inventou o quantitative easing, que é a recompra de títulos no mercado à proporção de US$ 85 bilhões por mês que despeja dólares no mercado. O Banco Central Europeu (zona do euro) adotou o Mecanismo Europeu de Estabilidade (ESM) para socorrer os bancos e acaba de derrubar os juros básicos para 0,25% ao ano. O Banco do Japão, orientado pelo primeiro-ministro Shinzo Abe, também está emitindo moeda, experiência que hoje está sendo chamada Abenomics.

Também é a principal razão pela qual, nos países em que vigora o regime de metas, os bancos centrais nunca perseguem uma inflação inferior a 2,0% ao ano. Se errassem para menos, poderiam atolar a economia na deflação, de saída difícil.

Mas, decididamente, dessa doença o Brasil está longe (veja ainda o Confira).

CONFIRA:

Deflação importada. Boa parte do risco de deflação, sobretudo na Europa, pode ser gerada de fora. A valorização do dólar, por exemplo, em consequência da iminente retirada dos estímulos do Fed, deverá reduzir as cotações das commodities, especialmente, petróleo e alimentos, não porque os custos desses produtos fiquem mais baixos, mas porque, valorizado, um dólar compra mais mercadorias do que comprava antes.

O fator China. Outra causa externa que pode concorrer para a redução dos preços das commodities é a desaceleração da atividade econômica da China, que tende a encomendar menos matérias-primas e menos energia em comparação ao que vinha sendo projetado.

Porta fechada. Uma arma clássica de combate à deflação é o aumento das despesas públicas, especialmente dos investimentos. O diabo é que esse recurso está praticamente descartado porque na Europa, no Japão e nos Estados Unidos, o setor público está endividado demais.