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A indústria sangra

Celso Ming

19 agosto 2014 | 21:00

Não deixa de ser paradoxal que uma indústria superprotegida, como a brasileira, que atua em uma das economias mais fechadas do planeta, esteja perdendo competitividade, até mesmo aqui no Brasil, transformado hoje em mercado cativo

Nesta terça-feira, o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Andrade, advertiu que “a indústria vive talvez um dos piores momentos da história”. Assim, um a um, os dirigentes revelam seu desapontamento pelo definhamento do setor.

Não deixa de ser paradoxal que uma indústria superprotegida, como a brasileira, que atua em uma das economias mais fechadas do planeta, esteja perdendo competitividade, até mesmo aqui no Brasil, transformado hoje em mercado cativo.

Andrade. Dias difíceis (FOTO: TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO)

Sempre haverá aqueles que pedem ainda mais proteção ou que pregam contra a inserção da indústria brasileira nas cadeias globais de valor. Estes não conseguem explicar por que o agronegócio, que enfrenta o mesmo custo Brasil, a mesma precariedade da infraestrutura e o mesmo câmbio fora de lugar, dá um show de competitividade, enquanto a indústria está todos os dias sangrando mais.

Em artigo publicado nesta terça-feira no jornal Valor Econômico, o economista José Augusto Arantes Savasini põe o dedo nessa ferida dolorosa. Até agora, prevaleceu o ponto de vista de que a indústria tem de ser amplamente protegida, dentro do princípio de que não pode depender de suprimento externo e tem de ser autossuficiente. Savasini argumenta que essa política hoje prevalecente, defendida pelos próprios dirigentes do setor produtivo, é um tiro no pé e uma das principais causas do seu definhamento.

Como consequência dessa escolha estratégica, feita lá atrás e não corrigida, todos os subsetores são protegidos em todas as etapas de produção com elevadas tarifas de importação. O resultado é o de que o produto final incorpora os altos custos das máquinas, dos insumos, das peças e componentes. Tudo isso junto, ainda tem de enfrentar impostos e juros altos demais.

A reivindicação recorrente da indústria é a de que o governo proveja ampla desvalorização cambial que se destine a compensar a baixa competitividade. Ora, a proteção cambial cai, como chuva, sobre todas as etapas da produção e puxa outra vez para cima os custos finais. Como a hemorragia segue, a indústria briga por mais câmbio. Quando vem, outra vez os custos sobem e a roda viciada dá mais uma volta.

Savasini sugere que o processo de recuperação da indústria comece com gradual retirada da proteção aduaneira e com uma progressiva inserção da indústria no sistema global de produção e de agregação de valor.

Nesse processo, ficará claro que alguns setores não conseguirão subsistir porque não são competitivos. Mas a indústria brasileira como um todo tende a sair fortalecida porque incorporará tecnologia, baixará seus custos e conquistará mercado externo.

Este não é ainda o ponto de vista que prevalece no setor. Os atuais dirigentes industriais continuam mais propensos a aceitar favores episódicos, a defender fartura de subsídios e a distribuição de toda sorte de pirulitos que o governo sempre está disposto a fornecer.

Mas as coisas parecem bem mais maduras para mudar. O Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) há alguns anos também entoava o mesmo samba de uma nota só, que pedia cada vez mais proteção. Hoje é o primeiro dos organismos da indústria a defender uma política mais racional, mais moderna e mais madura.

CONFIRA:

Aí está a evolução medida em período de 12 meses da receita nominal do setor de serviços.

Desaquecimento
O crescimento de junho, de 5,7% em comparação com junho de 2013, é o mais fraco desde janeiro de 2012. Não é consequência apenas da Copa que teve tantos feriados. Reflete o desaquecimento geral da economia.

Olha o petróleo
As cotações do WTI, o petróleo mais leve dos Estados Unidos, caíram ontem para US$ 94,98 por barril, as mais baixas desde 17 de janeiro.