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Não será como até agora

Celso Ming

sexta-feira 22/08/14

o ministro da Fazenda, Guido Mantega, avisou que, se Dilma for conduzida a um segundo mandato, será inevitável um aperto nas contas públicas ‘para que os juros possam cair’

Movido mais a medo do que a racionalidade, o mercado financeiro frequentemente se comporta de maneira maniqueísta, especialmente agora, nesta temporada eleitoral, tão carregada de voltagem emocional.

Entre os administradores de patrimônio, Dilma Rousseff passou a ser a encarnação do mal. Cada vez que sobe um ponto nas pesquisas de intenção de voto, o mercado desaba. Enquanto isso, a oposição foi entronizada no lado do bem. Quando melhoram as perspectivas de Aécio Neves, o mercado comemora. (Marina Silva, além de uma variável nova, é uma incógnita tanto nessa equação quanto nessa visão simplificada do mundo.)

A realidade não comporta dicotomias simplistas. Em entrevista publicada nesta sexta-feira pelo jornal Valor Econômico, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, avisou que, se Dilma for conduzida a um segundo mandato, será inevitável um aperto nas contas públicas “para que os juros possam cair”. Se acreditasse, o mercado teria aí uma boa notícia.

A gente sabe que as declarações do ministro não podem ser levadas ao pé da letra. Ele já prometeu demais e entregou de menos: belezura de crescimento econômico (média de 4,0% ao ano), avanço médio de 7% ao ano dos investimentos, inflação bem comportada, metas fiscais rigorosamente cumpridas e tal. Não entregou quase nada do que jurou entregar e continua enfeitando o bolo medíocre apresentado pela economia brasileira.

Mas, num certo sentido, desta vez, Mantega está dizendo mais coisa com coisa. Está dizendo que a economia terá de passar por importantes correções de rumo, seja quem for que estiver à frente do governo a partir do ano que vem.

Tomemos apenas a questão dos preços administrados, esses que são rigorosamente controlados pelo governo: tarifas de energia elétrica, combustíveis e, o mais importante deles, o câmbio (veja o gráfico). Vai ficando inadiável uma série de correções. Podem não configurar um tarifaço, pode ser a adoção de regras claras com reajustes graduais. Mas terão de sair, sob pena de que se criem ou se aprofundem enormes distorções e a economia se desorganize de uma vez.

As correções, no entanto, acabarão por distribuir enorme conta a pagar pela população. Uma delas virá na forma de mais inflação. Para segurá-la, será inevitável rígido controle das despesas públicas e a produção de uma sobra de arrecadação bem maior, destinada a conter a dívida (superávit primário).

Até mesmo um novo governo Dilma terá de desistir do experimentalismo desenvolvimentista adotado até aqui e praticar política mais consistente. Não tem cabimento a objeção de que a volta à ortodoxia, além de grande quantidade de vítimas, produzirá a destruição da política social do governo. O objetivo vai na direção contrária, é criar condições sistêmicas para que as políticas sociais e o emprego voltem a ficar sustentáveis.

Pode-se também argumentar que a recuperação da confiança exige mais do que a troca de móveis da sala de visitas. É verdade. No entanto, será impossível a recuperação da confiança sem drástica correção de rumos, com Dilma ou com outro na condição de ocupante do Palácio do Planalto.

CONFIRA:

No gráfico, a evolução da entrada líquida de Investimentos Estrangeiros Diretos (IED). No período de janeiro a julho, nada menos que 89% do IED destinou-se ao setor de serviços. A indústria ficou com apenas 5,1%.

Rombo externo
O déficit nas Contas Correntes em julho foi de US$ 6,0 bilhões, bem mais baixo do que os US$ 9,0 bilhões de julho de 2013. Esse rombo continua mais alto do que a entrada de IED, ou seja, exige cobertura de outras contas. A melhora das contas tem a ver com a relativa redução das importações, portanto, com menos consumo.