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Crédito emperrado

Celso Ming

26 agosto 2014 | 21:00

Há muita coisa em desaceleração na economia: a atividade produtiva, a renda, o emprego, o investimento, a poupança… Mas o que aparentemente mais preocupa a área econômica do governo Dilma é a desaceleração do crédito

Há muita coisa em desaceleração na economia: a atividade produtiva, a renda, o emprego, o investimento, a poupança… Mas o que aparentemente mais preocupa a área econômica do governo Dilma é a desaceleração do crédito.

No gráfico ao abaixo você tem a evolução do crédito no segmento livre (53,5% do total) e no direcionado. Se for levada em conta a inflação, de 6,5% no período de 12 meses terminado em julho, a conclusão é a de que o estoque de crédito enfrenta queda real.

 

Houve um tempo em que o diagnóstico oficial para o travamento era a má vontade dos bancos. Eles não se interessavam em conquistar mais clientes, punham o spread (diferença entre o que pagam e o que cobram) lá em cima, operavam com custos altos demais. A queixa do governo agora é a de que os bancos tiraram o pé do acelerador porque estão com medo de calote (inadimplência).

Na semana passada, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciou um pacote destinado a relançar o crédito, baseado em redução do depósito compulsório sobre depósitos a prazo, a parcela entregue pelos aplicadores que têm de ser recolhida ao Banco Central. Ou seja, o governo entendeu que seria preciso injetar um acorda leão nos bancos.

Algum efeito essas decisões deverão produzir, mas ninguém acredita que deem resultados imediatamente. A inadimplência (atrasos dos pagamentos superiores a 90 dias) está relativamente estável no segmento do crédito livre, tanto para pessoas jurídicas como para pessoas físicas (veja o Confira). Ou seja, apesar do mau momento econômico, marcado pela estagnação dos negócios e da renda, os bancos não enfrentam problemas graves com quebra de qualidade de sua carteira de crédito. Isso significa que a evolução mais lenta das concessões tem mais a ver com a falta de demanda, e não com a falta de oferta.

As empresas e as famílias estão recorrendo menos aos financiamentos bancários, tanto porque já estão excessivamente endividadas quanto porque assumiram um comportamento mais conservador para enfrentar as incertezas com o futuro da política econômica. É a temporada eleitoral, que deve levar a mudanças de orientação do governo.
Mais do que com a relativa estagnação do crédito em geral, o governo deveria se preocupar com o emperramento do crédito de longo prazo. Não há na rede bancária financiamentos de longo prazo para dar cobertura a projetos de infraestrutura. Só o BNDES opera nessa linha.

Isso não quer dizer que o crédito de longo prazo esteja impossibilitado porque, apesar dos juros, da inflação e das incertezas, os bancos já trabalham com financiamentos de até mais de dez anos no crédito imobiliário (hipotecas).

O governo Dilma bem que tentou criar interesse para aquisição de debêntures, um título de longo prazo que se prestaria a garantir recursos para o financiamento de obras de infraestrutura. Foi mais um aviãozinho que não decolou. Por que razão um aplicador deveria se interessar por ativos de longo prazo se tem à sua disposição modalidades de curto prazo que pagam o mesmo? Mas essa omissão vai custar caro para um país que precisa modernizar sua logística.

CONFIRA:

 

Esta é a evolução da inadimplência de pessoas físicas e jurídicas no sistema de crédito.

Incesto fiscal
Nesta terça-feira, o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, anunciou que o BNDES financiará não só os bônus de assinatura do leilão de telefonia 4G, mas também todo o custo da implantação, de mais de R$ 12 bi. Ficamos assim: O Tesouro precisa de R$ 8 bi para fechar suas contas. As concessionárias de telefonia pegam esses R$ 8 bi no BNDES. Mas o fornecedor de recursos para o BNDES é o próprio Tesouro. Isso é pedalada ou incesto fiscal?