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PIB miserável

Celso Ming

29 agosto 2014 | 21:00

O resultado negativo do PIB em dois trimestres consecutivos, conjugado com a inflação rondando o pico da montanha, demonstra que a política econômica do governo Dilma falhou

O resultado negativo do PIB em dois trimestres consecutivos, conjugado com a inflação rondando o pico da montanha, demonstra que a política econômica do governo Dilma falhou.

Este é o quarto ano consecutivo em que o governo promete crescimento anual do PIB entre 3,0% e 4,0% e entrega isso aí. Com o resultado do primeiro semestre, o crescimento do PIB em todo este ano tende a ficar ligeiramente acima de zero. (Veja o Confira).

É uma desconsideração para com a inteligência do brasileiro continuar com o ramerrame de que esse fiasco se deve à seca (embora o setor agrícola tenha crescido) e ao mau momento da economia global. Não é preciso listar os campeões mundiais. Basta comparar com o comportamento da economia de alguns emergentes: Turquia e Austrália crescem 3,0% ao ano; a Índia, 6,0%; a Coreia do Sul, 3,8%; o Chile, 2,8%; a Colômbia, 5,0%; a África do Sul, 2,0%. (Dados da revista The Economist.)

O Brasil engata a queda no primeiro trimestre (-0,2%) com outra, no segundo (-0,6%). Configura-se a tal recessão técnica, que até agora o governo não ousava imaginar. Mas essa, convenhamos, é uma convenção discutível, que em princípio poderia ser desfeita com uma simples revisão futura das Contas Nacionais, de menos para mais, assim como a do primeiro trimestre deste ano foi corrigida de mais para menos. No entanto, não dá para negar que a economia brasileira está miseravelmente atolada.

Outra conversa recorrente do governo é a de que esses números são passado e que é preciso parar de olhar pelo retrovisor e olhar mais pelo para-brisa. O diabo é que o investimento, que é crescimento futuro, está em queda livre. Caiu 5,3% em relação ao primeiro trimestre e 11,2% em relação ao segundo trimestre do ano passado. Insistir, também, em que pelo menos foi preservado o emprego implica admitir que não há margem para avançar mais. Se nesse marasmo, a economia já está vivendo o quase pleno emprego, imagine o que seria a escassez de mão de obra se estivesse a um ritmo de crescimento de 2% ou 3% ao ano.

A foto ruim do momento econômico é consequência do modelo experimentalista adotado, que renegou os manuais clássicos de Economia Política e expandiu excessivamente as despesas públicas. Deu prioridade ao consumo, sem base na poupança e no investimento e tentou algum remendo com a adoção de pacotes casuísticos temporários. De quebra, decisões infelizes tomadas com o objetivo de segurar a inflação no cabresto produziram distorções que não ficaram limitadas ao sangramento do caixa da Petrobrás, da Eletrobrás e do setor do etanol. Desarrumaram a economia do País e sabotaram a confiança.

Inevitável agora é a forte correção de rumos, até mesmo se as eleições conduzirem Dilma a um segundo mandato – ainda que ela insista em que a política econômica a ser adotada não será diferente da atual. Com ou sem tarifaços, uma conta alentada terá de ser repassada para o contribuinte e para o consumidor. Quem assumir o governo terá de escolher em que ritmo e em que intensidade isso se dará. Mas a tarefa mais imediata é garantir a recuperação da confiança.

CONFIRA:

O gráfico mostra o comportamento do PIB e da inflação em três anos, além das expectativas para 2014.

“O povo não come PIB”
Por mais que se esforce por mostrar resultados na área social, um governo que desemboca com esse desempenho do PIB não tem como garantir boa avaliação. Embora essa vulnerabilidade possa vir a ser explorada na campanha eleitoral, é pouco provável que, isoladamente, tenha impacto decisivo nas urnas. Tem lá certa razão a economista Maria da Conceição Tavares, alinhada ao PT, quando afirma que “o povo não come PIB”.