A bola está com o Ilan

Cida Damasco

21 Março 2018 | 18h50

Se a redução da taxa de juros é para ser “estimulativa” , como o Banco Central vem repetindo em seus documentos, tudo indica que ela precisa ir adiante e chegar à ponta do mercado. Em outras palavras, o ciclo de cortes da Selic não pode acabar, ao contrário do que indicava a ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), no início de fevereiro, e as taxas pagas por pessoas físicas e jurídicas para a contratação de empréstimos não podem cair com a lentidão que vem sendo observada. Daí porque a redução da Selic em mais 0,25 ponto porcentual, nesta quarta-feira, para 6,5%, não deve encerrar o ciclo de redução de juros, iniciado em outubro de 2016. Vem pelo menos mais um corte por aí, conforme anuncia o próprio comunicado divulgado após a decisão desta quarta-feira. Até porque as taxas de inflação continuam abaixo do piso da meta.

A chave desse novo cenário é o comportamento da atividade econômica neste começo do ano. Por mais que alguns analistas se comportem como animadores dos velhos programas de auditório — “vamos lá, moçada, a retomada continua firme e forte” –, os sinais são de que se trata, digamos, de meia verdade. Salvo algum terremoto na política, não há desastre à vista. A recessão ficou mesmo lá atrás e a retomada está em andamento. O problema é o ritmo desse andamento. Inegavelmente lento, para dar conta da ansiedade nas áreas política e econômica. Pode não mudar muita coisa em termos concretos, mas uma projeção de crescimento do PIB abaixo de 3% corre o risco de causar frustração, diante do discurso do “agora acelerou de vez”.

A divulgação do Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), relativo a janeiro, com uma queda de 0,56.% sobre o mês anterior, foi a responsável por desencadear uma certa mudança no astral na área econômica, embora os sinais de recuo já estivessem na praça. É cedo para arquivar a projeção dos 3% no fechamento do ano? Claro que é. Afinal de contas, o primeiro trimestre ainda não terminou. E, em relação a fevereiro, ainda há dados esparsos e contraditórios. Mas, por dever de ofício, bancos e consultorias já começam a refazer seus cálculos, em bases, digamos, mais moderadas. De maneira simplista, dá para dizer que, hoje, o crescimento do PIB no ano está mais para 2,5% do que para 3%. A economia, portanto, ainda não se mostra em condições de dispensar a ajuda de novos cortes de juros para melhorar o fôlego — como o previsto para o próximo Copom, em meados de maio.

O preocupante, nesse caso, é que a verdadeira barafunda que caracteriza o quadro eleitoral não ajuda em nada. Ao contrário, só atrapalha. Vamos aos últimos lances: 1) Temer avisa que não é “improvável” sua candidatura à reeleição; 2) Meirelles corre atrás de uma indicação do MDB para não se atirar na disputa sem a proteção de um partido forte; 3) Rodrigo Maia diz que é zero a chance de sair candidato a outro cargo, que não a Presidência.

Com essa divisão na banda governista, como fica a pauta do governo? Temer está metido até o pescoço na questão da segurança, principalmente depois da morte de Marielle Franco, e, da área econômica, quer mesmo é garantia de verba para o Rio. Meirelles ainda insiste no discurso da austeridade fiscal, mas sabe que, sem a atividade econômica andar mais depressa, não tem nem currículo para aspirar à Presidência. Maia, por sua vez, tenta se cacifar junto a parte do eleitorado com ativismo do Congresso na área econômica — e ressuscita 12 dos 15 pontos da agenda apresentada pelo Planalto, logo após o enterro da reforma da Previdência, aquela que ele mesmo classificou de requentada.

Perguntas inescapáveis: que pauta econômica pode prosperar nessa situação? Que empurrão adicional é possível dar na atividade econômica? Pelo visto, a resposta mais imediata é uma só. A bola está com o Ilan (Goldfajn, presidente do Banco Central) e com o Copom,  para tirar mais uns pontinhos da Selic. E assim vai caminhando 2018.