A torneira pinga

Cida Damasco

24 Agosto 2017 | 21h39

Depois das contas inativas, vem o PIS-Pasep. O governo autorizou a liberação do saque de R$ 15,9 bilhões do PIS-Pasep para idosos, correspondente a um universo de 8 milhões de pessoas a partir de 65 anos (para homens) e 62 (para mulheres). A expectativa é que, dessa bolada, cerca de R$ 4 bilhões cheguem ao comércio – praticamente um terço do dinheiro proporcionado pela liberação dos saques das contas inativas do Fundo de Garantia. Pouco, portanto, para dar uma injeção de consumo suficiente para vitaminar a atividade econômica – embora represente um reforço nos orçamentos de uma faixa da população normalmente com renda mais modesta.

O governo vai atuando como dá para reanimar a economia. Um incentivo aqui, outro ali, uma torneira aberta aqui, outra aberta ali, mas evitando apelar para medidas que tenham qualquer conexão com a estratégia do governo Dilma. A desoneração das folhas de pagamento de vários setores, uma das bases dessa estratégia, acabou sendo renegada pela própria Dilma – que jogou a culpa do fracasso sobre as empresas, por não terem garantido contrapartida aos benefícios oferecidos pelo governo, principalmente em termos de manutenção dos empregos.

O essencial para a retomada é a política de juros, mas mesmo ela não tem sido capaz de promover a volta dos consumidores às compras nas proporções compatíveis com uma forte reativação dos negócios. Até porque, na ponta do consumo, os juros continuam elevadíssimos, apesar da queda observada em várias linhas, acompanhando a trajetória da Selic, a taxa básica. E, quem puder e tiver juízo, tão cedo não volta a se endividar com o mesmo ímpeto de outros tempos. Afinal, são mais de 59 milhões de inadimplentes espalhados pelo País, segundo pesquisa recente da SPC, que acompanha as variações no número e no perfil das pessoas com CPF negativado em razão de atrasos nos pagamentos superiores a 90 dias.

Os números mais recentes sobre a evolução do crédito também confirmam esse comportamento cauteloso em toda a cadeia – seja por parte dos bancos, que durante a crise refinaram os critérios para concessão de crédito à clientela, seja por parte das empresas e pessoas físicas, que em consequência do alto nível de endividamento e também das incertezas quanto ao futuro também hesitam em assumir novos compromissos.

Segundo o BC, em julho o saldo das operações de crédito teve uma pequena queda (0,6%), e os juros médios uma pequena alta (de 0,2 ponto porcentual, para 29% ao ano) – no crédito rotativo, cujas regras mudaram recentemente, as taxas também subiram e quase bateram em 400% ao ano. Há, portanto, muito ainda a se fazer, não só em relação à taxa Selic como principalmente em relação ao spread – aquela gorda diferença entre o que os bancos pagam a quem aplica seu dinheiro e o que cobram de quem toma empréstimos –, antes que os juros reais, pagos pelas pessoas e pelas empresas, atinjam níveis civilizados. E ajudem a atividade econômica a embarcar num ciclo de crescimento sustentado.