As idas e vindas no mercado de trabalho

Cida Damasco

28 Fevereiro 2018 | 16h42

A explicação está na ponta da língua: o aumento de 0,4 ponto porcentual na taxa de desemprego no trimestre encerrado em janeiro é basicamente um resultado do fim dos contratos temporários assinados pelas empresas para dar conta do movimento de final de ano. Portanto, não justificaria um temor com a interrupção do processo de reerguimento do mercado de trabalho. A questão, contudo, é que esses números relativos — e suas pequenas variações, para cá e para lá —  não são suficientes para dar a real dimensão da situação do mercado.
A taxa de desemprego apontada pelo IBGE nesse período — 12,2% da população economicamente ativa — representa 12,7 milhões de desempregados no País, mais do que a população inteira da cidade de São Paulo. Gente de carne e osso, de idades, regiões, qualificações e estratos sociais diferentes, que tem de cobrir gastos com financiamento de imóveis ou aluguel, transporte, educação, saúde, e assim por diante. Os números praticamente dobram, quando se considera a chamada subutilização da força de trabalho: a taxa média no ano passado foi de 23,8%, o correspondente a 26,5 milhões de pessoas. Traduzindo o economês, esse conceito refere-se a quem não tem emprego e está procurando, quem trabalha menos de 40 horas por semana e quem não está procurando emprego mas estaria disponível para trabalhar.
Querem ainda outro indicador de que o quadro melhorou, mas ainda é preciso muito mais para caracterizar uma recuperação firme? No último trimestre do ano passado, bateu recorde o número de pessoas em situação de desalento, que, como a própria expressão indica, desistiram de procurar emprego. No fechamento de 2017 estavam nessa classificação eram 4,35 milhões de pessoas, quase 60% moradoras no Nordeste. Ou seja, apesar dos sinais de retomada na atividade econômica, um considerável contingente de trabalhadores ainda não se sentia estimulado a sair de casa para procurar colocação no mercado.
O mais preocupante, nesse cenário, é que, para o conjunto da população, o desemprego ainda é a face mais visível da recessão — assim como, o inverso, a volta do emprego é a face mais visível da melhora da economia. Mais até do que a queda da inflação, que por razões óbvias não é percebida com o mesmo impacto por todas as faixas de renda.
É inegável que está havendo um alívio no desemprego. Mas esse alívio ainda se concentra em empregos de menor qualificação e na informalidade. Com investimentos ainda travados, faltam vagas, por exemplo, para trabalhadores com maior nível de qualificação e para os jovens que estão fazendo suas primeiras incursões no mercado.
Em outras palavras, não estamos mais naquela situação em que todo mundo tem uma história de desemprego para contar, seja de um parente, de um amigo ou de um vizinho — quase sempre uma história de busca persistente e mal sucedida por uma vaga, nem que seja fora de sua especialidade e bem abaixo da sua remuneração anterior. Mas também ainda não chegamos àquele ponto em que as empresas disputam os trabalhadores mais preparados, o que resulta em valorização dos salários.
Mesmo o avanço do empreendedorismo, tido como uma característica do novo mundo do trabalho, ainda tem muito, no Brasil desses tempos, de pura necessidade e não de opção — ou seja, uma contingência para quem procura e não encontra um emprego com carteira assinada.