BC relativiza impacto de incertezas

Cida Damasco

26 Julho 2017 | 20h25

 

A redução de 1 ponto porcentual na taxa básica de juros, a Selic, de 10,25% para 9,25% ao ano, numa decisão unânime dos integrantes do Copom nesta quarta-feira, está perfeitamente de acordo com as previsões  — e as justificativas – feitas pela maioria dos analistas. Afinal de contas, a atividade econômica continua andando devagar, à espera de alguma injeção adicional de ânimo para acelerar. E a inflação se mantém comportada, apesar do impacto esperado para a alta nos preços dos combustíveis – que voltou a vigorar, com a derrubada da liminar que havia derrubado o decreto.

No comunicado divulgado após a reunião, o BC dá voz a essas considerações dos mercados, ao citar que a inflação permanece “favorável com desinflação difundida” e que os indicadores da atividade econômica apontam para “estabilização da economia brasileira no curto prazo e recuperação global”.

Mas onde foram parar aquelas incertezas, citadas no comunicado da reunião anterior e, de maneira mais branda, na própria ata? O novo comunicado também se refere a elas, mas relativiza sua influência sobre o cenário econômico considerado pelo Copom. No documento, o BC reconhece que “o aumento da incerteza quanto ao ritmo de implementação das reformas e ajustes na economia impactou negativamente os índices de confiança dos agentes econômicos”, mas avalia que isso produziu um “efeito limitado na atividade”.

Tudo ponderado, parece que o BC, criticado por alguns analistas na reunião anterior por um certo excesso de cautela, desta vez estaria relativizando a questão das incertezas políticas. Mesmo que, de lá para cá, nem o ritmo de implementação das reformas nem o de ajustes da economia tenham se alterado significativamente. Para começar, ainda não há segurança sobre quem estará na cadeira presidencial até as eleições de 2018. Pelo andar das negociações, Temer deve superar o embate com o plenário da Câmara – as projeções mais recentes dão conta de que na semana que vem será rejeitada a primeira denúncia da Procuradoria Geral da República, embasada nas delações dos irmãos Batista. Mas outras duas – isoladas ou empacotadas numa única denúncia – já estão em preparação e devem sair logo, antes que Raquel Dodge ocupe o lugar de Rodrigo Janot.

As incertezas não desaparecem, mesmo que Temer sobreviva a essas denúncias e ao impacto de nova delação-bomba, como a negociada por Eduardo Cunha ou pelo doleiro Lucio Funaro. Leia-se, a esse respeito, qual será o custo da vitória de Temer no Congresso. A desconfiança é que esse custo acabe pesando na situação das contas públicas, cujo agravamento salta à vista nos números divulgados também nesta quarta-feira: déficit de R$ 56 bilhões no primeiro semestre, o pior resultado em 21 anos, que reforça as expectativas de frustração da meta fiscal fixada para 2017, um rombo de R$ 139 bilhões. Além disso, teme-se também que o governo se arraste, sem conseguir tocar em frente pautas mais ambiciosas. Exatamente por isso, mesmo os mais interessados em destravar a reforma da Previdência empenham-se agora em buscar um acerto apenas em torno da idade mínima para aposentadoria.