Despacito

Cida Damasco

17 Agosto 2017 | 16h52

No meio de tanta má notícia que cerca a economia brasileira nos últimos tempos, surgem alguns sinais moderadamente positivos sobre a quantas anda a retomada. O mais recente é o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), divulgado nesta quarta-feira, que pode ser visto como um indicador antecedente do PIB, apesar das diferenças de metodologia. Com uma alta de 0,5% no mês e de 0,25% no segundo trimestre, em comparação com o anterior, o IBC-Br ainda mostra vários resultados negativos – tanto na comparação com o segundo trimestre de 2016, como no semestre e nos 12 meses terminados em junho. Mas, segundo o BC, os dados confirmariam aquela tese de que o fundo do poço chegou – e como tem fundo esse poço! – e a retomada é gradual.

É pouco? Claro. Mas é melhor que nada. Logo após a divulgação do IBC-Br chegou-se até a especular sobre a possibilidade de que o PIB do segundo trimestre, que será anunciado no dia 1º de setembro, registre um novo crescimento. Ao contrário do que previam vários analistas, com base na avaliação de que a expansão de 1% verificada no primeiro trimestre estava assentada principalmente no desempenho da agropecuária — e, em consequência, o gradativo enfraquecimento dos efeitos da supersafra faria o PIB do segundo trimestre voltar ao vermelho. O próprio ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, tratou de esvaziar as especulações mais otimistas, reforçando as estimativas anteriores de um PIB com variação zero ou até negativa.

O IBC-Br do segundo trimestre só não é surpreendente, porque os principais indicadores setoriais já vinham apontando na mesma direção. Segundo o IBGE, as vendas do varejo tiveram o melhor trimestre em três anos, com alta de 2,5% sobre o mesmo período de 2016. O setor de serviços registrou um crescimento bem mais limitado (0,5%) na mesma base de comparação, mas o resultado foi o primeiro positivo após 9 trimestres seguidos de números negativos. E a indústria, que ficou no zero a zero em junho, terminou o trimestre com uma variação modestíssima de 0,2% também sobre o período correspondente de 2016. Tanto a confiança empresarial como a confiança do consumidor, medidas respectivamente pela Fundação Getúlio Vargas e pelo Serviço de Proteção ao Crédito e com comportamento bastante errático, mostram algum avanço, em julho.

Diferenças metodológicas à parte e oscilações para um lado e para outro, o fato é que ainda não há razão para se decretar a consolidação da retomada. Como naquele hit-chiclete que bate recordes e recordes de visualizações na internet e de audiência no Spotify, a economia brasileira continua caminhando “despacito”.  A derrubada dos juros, é verdade, veio para acelerar a retomada. Mas até agora não conseguiu “mostrar serviço” nas proporções desejadas, tendo em vista o forte endividamento que solapou os orçamentos de empresas e consumidores. Além do mais, a crise fiscal está aí para complicar o que já não era simples. E não custa repetir: tudo o que se tem visto, nos últimos dias, é um movimento forte para  tentar “cavar” alguma folga nas contas públicas. Não para dar qualquer gás à economia, como poderiam imaginar alguns desavisados, mas para garantir privilégios. Assim, persiste o risco de que ainda leve tempo para se mudar de trilha sonora.