Emprego em marcha lenta

Cida Damasco

29 Março 2018 | 16h48

O debate sobre a redução do ritmo da retomada ganha um tempero adicional, com a divulgação dos números do desemprego, nesta quinta-feira, 29 de março. A taxa de desocupação no Brasil chegou a 12,6% no trimestre encerrado em fevereiro, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do IBGE. Em relação ao trimestre terminado em janeiro, houve uma alta de 0,4 ponto porcentual. São agora 13,121 milhões de desocupados em todo o País, um exército correspondente a mais de uma São Paulo. Foi a segunda elevação seguida da taxa, depois de um longo período ladeira abaixo.

Diante desses números, há uma certa tentação de se partir para avaliações extremadas. De um lado, há quem argumente que as variações são pequenas. Além disso, espelham apenas um comportamento sazonal do mercado, já que no começo do ano o desemprego costuma subir, com a dispensa dos trabalhadores temporários contratados para o período de festas. Em 2017, por exemplo, com o PIB começando a sair do fundo do poço, ocorreu exatamente o mesmo movimento. Por fim, a comparação com o mesmo período do ano passado indicaria um alívio no quadro — uma redução de 3,1% no número de desocupados e um aumento de 2% no número de ocupados.

Porém, se estamos falando de relativizar o aumento do desemprego no curto prazo, também é prudente relativizar essa melhora no período de um ano. Pelos números do IBGE, continua a sangria de postos com carteira assinada, justamente os de maior qualidade e indicativos de uma maior vitalidade do mercado de trabalho — foram exatamente 92 mil vagas formais a menos na comparação com o trimestre setembro-novembro e o pior resultado desde 2012, ponto de partida da série histórica. Pode-se concluir também que não foi expressiva a tendência de contratação de trabalhadores temporários, por força da retomada, ao contrário das expectativas de alguns analistas e também de projeções feitas por entidades setoriais.

Em resumo, o que fica visível mesmo, no meio desse conjunto de números, é a lentidão do processo de retomada da economia e, por tabela, do processo de reativação do emprego. Se é verdade que, apesar da prioridade à segurança pública, a economia ainda terá um papel de destaque na campanha presidencial — e a entrada em cena do ministro Henrique Meirelles, na vice ou na cabeça de chapa governista, dá uma pista nessa direção — o mercado de trabalho, pelo menos por enquanto, não deve ser um cabo eleitoral dos mais eficientes.

A percepção da retomada pela população em geral vinha sendo bastante limitada, como reconheceu inúmeras vezes o próprio Meirelles. E, pela marcha mais lenta da retomada, neste começo de ano, tudo leva a crer que não haverá uma mudança substancial de ânimo a curto prazo. Para quem busca uma colocação no mercado, não basta a constatação de que, de fato, a recessão acabou. É preciso mais: emprego num prazo razoável e remuneração num nível aceitável.