Hoje não

Cida Damasco

15 Março 2018 | 23h52

Há exatamente uma semana as colunistas e blogueiras do Estadão cederam seu espaço, no dia Internacional da Mulher, para que vítimas de violência e abusos contassem suas histórias. Quase uma premonição. Uma semana depois estamos todos (as) atordoados (as) com a execução da vereadora Marielle Franco, que se definia como mulher, negra, mãe, cria da favela da Maré — defensora dos direitos humanos e representante das minorias.

Nove tiros abateram Marielle e seu motorista, Anderson Gomes, na noite de quarta-feira, no centro do Rio, e espalharam seus estilhaços por todo o País e até pelo exterior. As manifestações desta noite, em várias cidades, dão a dimensão do impacto desse crime, ocorrido  em plena vigência da controvertida intervenção militar no Rio.

Passei o dia todo tentando falar sobre economia, o tema central desse meu blog. Ameaça de retaliação na OMC às sobretaxas do aço impostas por Trump? A escandalosa greve dos juízes pela manutenção do auxílio-moradia? Sinceramente, porém, nada disso me comoveu. Nada disso me pareceu suficiente para encobrir a tragédia da violência no Rio. Amanhã volto aos meus trilhos, mas hoje não. Afinal de contas, o blog se chama “Além da economia” e o que sensibiliza todo mundo, hoje, está mesmo muito além da economia.

Um mergulho nas redes sociais me mostrou as várias faces da população, nas suas reações ao assassinato de Marielle. Algumas que não valem a pena ser exibidas, dada a virulência e a falta de empatia — para dizer o mínimo. Outras que procuram relativizar a tragédia, lembrando que “todo dia se mata gente no Rio e em todo o País”, e nem por isso causam a comoção criada pela morte de Marielle. Melhor não entrar nessa discussão. Qualquer comentário que comece com algo na linha “mas também,..” já se sabe onde vai chegar. Certamente não a bom termo.

Para quem tenta defender a tese de que se trata apenas de mais uma morte, vale a pena reler a história recente do País. Nas minhas colunas e posts, não tenho por hábito usar a primeira pessoa nem reviver minhas memórias, mas nesse caso acho que faz sentido. Quem, como toda a minha geração, testemunhou a morte do estudante Edson Luís, numa manifestação estudantil no restaurante Calabouço, no Rio, em 1968, um momento que, para muitos observadores, foi o estopim do período mais sombrio da ditadura, a morte de Marielle ganha um significado um pouco maior.

Claro que os momentos são diferentes, mas o gosto amargo é parecido. Muitos se aventuram a prever que o cenário eleitoral, já confuso, terá uma reviravolta. Há também quem já esteja decretando a falência da intervenção militar na segurança do Rio. Por enquanto, só apostas. Que a morte de Marielle e Anderson não seja apenas mais um episódio, mas se transforme num verdadeiro “turning point” nessa escalada de violência do Rio e do Brasil. Esperamos, todos, justiça.