Inflação, deflação e desinflação. Cada um vê como quer

Cida Damasco

20 Julho 2017 | 20h00

A possibilidade de que o Brasil registre, em seguida, duas deflações – em junho e julho – é motivo de comemoração ou de preocupação? A julgar pela grande maioria das manifestações, a primeira alternativa é a correta. Afinal de contas, depois de um longo período de resistência em patamares elevados – e, por tabela, de distanciamento das metas oficiais –, a inflação brasileira simplesmente despencou.

Em junho, o IPCA caiu 0,23%, o primeiro resultado negativo desde junho de 2006. Em julho, o IPCA-15, prévia da inflação oficial, teve uma redução de 0,18%. Tanto é que os oráculos do mercado já preveem uma taxa de 3,29% para fechamento do ano, bem abaixo do centro da meta – 4,5%, com uma tolerância de dois pontos para cima e para baixo. E, confiante nessa tendência descendente, o Conselho Monetário Nacional recentemente baixou a meta de 2019 para 4.25%, com tolerância de apenas 1,5 ponto.

Dito isso, passemos à segunda alternativa. Se não for apenas um episódio dentro de uma trajetória, queda de preços também é, sim, razão para preocupação. Simplesmente porque ela costuma estar ligada à recessão. Por mais que se encontrem motivos específicos para esse “bom comportamento” da inflação, como é o caso, por exemplo, da redução de 3,16% nos preços de combustíveis, captado no IPCA-15 de julho. Essa baixa, inclusive, abriu caminho para o aumento das alíquotas do PIS/Cofins sobre os combustíveis, anunciado nesta quinta-feira em meio a forte polêmica, com o objetivo de reduzir o rombo fiscal – o cálculo é que essa alteração no PIS/Cofins resulte numa alta da ordem de 7% nos preços dos combustíveis para o consumidor.

A propósito do perigo da queda persistente de preços, as discussões concentram-se agora numa questão aparentemente semântica: para muitos especialistas, a economia brasileira estaria atravessando um período de desinflação e não de deflação. A deflação ocorre quando os preços de produtos e serviços caem durante um determinado período. E a desinflação ocorre quando os preços continuam subindo, mas em ritmo mais lento, caso do Brasil nesse momento – o que caracteriza um processo de perda de fôlego da inflação. No Brasil, houve queda do IPCA por três meses seguidos em 1998, durante a chamada crise da Rússia que se amplificou por todo o mercado internacional.

Haveria uma diferença entre os dois conceitos, também em relação às perspectivas. Num ambiente de deflação, diante da expectativa de uma queda ainda maior de preços, o consumidor tenderia a adiar as compras – agravando, assim, a recessão, o que poderia resultar em mais deflação. Na desinflação, com a perspectiva de uma interrupção nesse movimento de queda de preços em breve, haveria um estímulo não a um adiamento,  mas a uma antecipação das compras.

Questões conceituais à parte, o fato é que não dá para dissociar a deflação “ou a desinflação” do quadro de fragilidade da atividade econômica no País. Por isso mesmo, depois de um período de incertezas alimentadas pela crise política, o mercado voltou a se guiar por previsões de uma aceleração na derrubada dos juros nas próximas reuniões do Copom.

PS – Se até especialistas divergem sobre deflação/desinflação e outras questões desse tipo, imagine o cidadão comum. Experimente perguntar a um consumidor que frequenta supermercados e come fora de casa se ele notou alguma redução de preços. Dez entre dez dirão que não. Explique a cada um deles que a inflação é uma média, refere-se ao movimento de preços de uma cesta de produtos/serviços e, portanto, pode variar bastante, dependendo da faixa de renda, dos hábitos de consumo, da região etc. Certamente ele dirá que a sua inflação é bem mais alta do que a oficial.