Mais perto do térreo

Cida Damasco

06 Dezembro 2017 | 19h04

2017 vai fechando conforme o esperado: taxa básica de juros de 7% ao ano, a mais baixa da série histórica do Banco Central (BC), iniciada em 1986, empatada com a cobrada nos empréstimos de longo prazo do BNDES. Um resultado comemorado pelo governo como um de seus grandes feitos no campo da economia. Sem querer diminuir a ação do Banco Central na direção dessa Selic “estimulativa”, não dá para ignorar que o juro real, descontada a inflação, ainda é muito elevado, o quarto no ranking mundial. Mais ainda, para os tomadores finais, pessoas físicas ou empresas, embora em queda, continua muito acima dos níveis ditos civilizados.

Se o observador não for do ramo e não se debruçar sobre os números, poderá até se confundir com a movimentação dos juros em torno do Copom. Um ritual que se repete a cada reunião. Mal termina o encontro, entidades de classe da indústria, do comércio e centrais sindicais divulgam notas oficiais lamentando ou minimizando a decisão do Banco Central – seja qual for a decisão –, quase um ctrlc ctrv dos comunicados anteriores. Já os bancos, com a mesma rapidez, alardeiam redução nas taxas cobradas nas linhas de empréstimos. Essa segunda parte do ritual foi até aperfeiçoada: há bancos que chegam a fazer o anúncio de corte nas taxas antes mesmo da reunião.

Apesar de todo esse marketing, porém, é inegável que ainda há uma parte substancial a ser abatida dos juros vigentes no mercado. Vamos ao detalhamento da trajetória dos juros básicos e dos juros na ponta durante o ano de 2017. Nesse período, a Selic caiu quase à metade, de 13,75% para 7% ao ano. Já nas operações de crédito, a queda pode até ter sido substancial, mas certamente foi insuficiente para cumprir integralmente essa função “estimulativa”, destacada pelo próprio BC.

De dezembro de 2016 até outubro de 2017, o dado mais recente, a taxa média nas operações totais de crédito do sistema financeiro passou de 32% ao ano para 27,4% — e no chamado segmento livre, a redução foi de 52% ao ano para 43,6%. Para pessoas físicas, a queda foi de 41,5% para 34,2% e, para empresas, de 20,1% para 18%.


As instituições financeiras insistem que a inadimplência permanece preocupante e não há segurança para a concessão dos empréstimos – o que acaba tendo um reflexo direto no “preço” do dinheiro. E é bom lembrar que, se depender dos rumos da Selic, o impulso para apressar essa descida dos juros está no fim. A julgar pelo comunicado do Copom e pelas expectativas generalizadas, a temporada de corte da Selic deve acabar logo – tudo indica que na reunião de abertura de 2017, virá mais uma redução, mais acanhada, para 6,75% ao ano, e daí para frente o que de melhor pode acontecer é estabilidade. Isso se a campanha eleitoral não balançar os mercados.