Na beira do rio

Cida Damasco

08 Setembro 2017 | 13h28

O ex-ministro Nelson Barbosa, ao defender a derrubada dos juros como estratégia para estimular a demanda, costumava dizer que primeiro era preciso levar o cavalo para a beira do rio. Só assim era possível comprovar se ele iria ou não beber água. Barbosa se referia a avaliações de que, ao contrário do que havia ocorrido nos tempos da “marolinha” de Lula, não adiantava injetar crédito no mercado, porque não havia demanda. No momento, ao que parece, o Banco Central faz a sua parte e trata de animar os bancos para tocar o cavalo até o rio.

Cumprindo exatamente o roteiro esperado, o BC reduziu nesta quarta feira a taxa básica de juros, a Selic, em mais 1 ponto porcentual e levou-a para 8,25%. A decisão veio no mesmo dia em que a inflação de agosto, ficou em 0,19%, abaixo das expectativas do mercado, derrubando o resultado acumulado em 12 meses para 2,46% — algo impensável pouco mais de um ano atrás, quando muitos analistas ainda alertavam para o fôlego da inflação.

Está armado, portanto, um quadro para que o crédito destrave e ajude a retomada da economia a “pegar”, com o consumo inicialmente ocupando a ainda larga capacidade ociosa das empresas e funcionando em seguida como estímulo à volta dos investimentos. Pelas expectativas de analistas, a Selic pode fechar o ano abaixo dos 7%.

Para que isso funcione, no entanto, é preciso que o corte do juro básico chegue à ponta do crédito para o tomador final – e já não é mais hora de discutir se o BC demorou ou não para iniciar a trajetória de derrubar os juros. Os números mais recentes do mercado de crédito mostram uma trajetória de redução de juros, mas em julho ela teria tido uma parada técnica. Chamou atenção inclusive o fato de que no crédito rotativo do cartão, alvo de uma medida específica , houve até um aumento nas taxas. Além disso, em outro sinal de uma certa trava, as novas concessões de crédito registraram uma queda no mês.


No comunicado da reunião do Copom, o próprio BC aponta a conveniência de uma política monetária “estimulativa”, com taxas abaixo da taxa estrutural. E, por falar em estímulos, o governo tenta dar mais um empurrão nessa direção, com um novo corte nas taxa de juros dos empréstimos consignados, uma das linhas mais baratas do mercado. A taxa cobrada para aposentados e pensionistas está em 2,14% ao mês, e em 2,2% para os servidores públicos. No caso dos aposentados, a nova taxa ainda está em discussão, mas para servidores deverá cair para 2,05%.

É verdade que os níveis de inadimplência ainda não cederam substancialmente – e, portanto, nem as instituições financeiras estão dispostas a abrir a guarda nas concessões de crédito nem os consumidores parecem inclinados a assumir grandes dívidas. Aos poucos, porém, o cavalo começa a se aproximar do rio.