O amanhã

Cida Damasco

02 Agosto 2017 | 22h21

Na votação do impeachment de Dilma, os parlamentares que desfilavam à frente dos microfones invariavelmente recorriam a um discurso inflamado de combate à corrupção. Na votação desta quarta-feira, que derrubou a denúncia contra Michel Temer, a estabilização da economia foi o mote de estridentes manifestações de apoiadores do presidente. Manifestações que, em última instância, podem ser resumidas com uma única indagação: Por que afastar Temer justamente agora, que a economia começa a se recuperar e as reformas começam a andar? Haveria aí, por esse raciocínio, quase uma “conspiração” das oposições contra os interesses do País.

Descontando-se a necessidade de se arrumar um motivo nobre para deixar “tudo como está” e impedir que a metralhadora giratória da delação dos irmãos Batista, carregada por Rodrigo Janot, amplie seus estragos no mundo político, o fato é que a economia está mesmo no centro das discussões e das especulações que envolvem o futuro do governo. Tudo o que se debate agora é o que virá nesse front, na segunda fase da era Temer, como o próprio presidente definiu esse ano e meio de mandato que resta durante jantar com aliados na véspera da votação  – passando a impressão de que, para a turma do Planalto, novas denúncias podem até vir mas, se vierem, serão rejeitadas com mais facilidade, tendo em vista a vitória confortável obtida nesse primeiro embate.

Na economia, contudo, tudo indica que não há razão para grandes manifestações de otimismo. A primeira fase do governo Temer deixa para a segunda fase um quadro ainda complicado. Especialmente na área fiscal, que mostra sinais cada vez mais fortes de desarranjo, desafiando em especial a articulação da equipe econômica comandada por Henrique Meirelles com as pressões do staff político do presidente.

A área fiscal é a mais emblemática do quanto as incertezas políticas têm pesado sobre a economia brasileira, nos últimos tempos. Mais especificamente, do quanto a dependência do Congresso está influenciando uma ação errática do governo Temer. Vamos à crônica das últimas semanas. 1) Vários setores da administração pública, como o da emissão de passaportes, ameaçaram paralisar as atividades por falta de dinheiro. 2) O governo patrocinou um verdadeiro festival de emendas parlamentares, que desde a divulgação da delação da JBS, no fim de maio, atingiu R$ 4,1 bilhões. 3) Numa tentativa de cobrir buracos nas contas deste ano, foi anunciado um aumento de impostos sobre combustíveis e não se descarta a hipótese de novas altas em tributos. 4) O PAC teve o segundo corte de verbas neste ano, totalizando R$ 16,3 bilhões. 5) Os produtores rurais foram beneficiados por um novo Refis, que representa uma renúncia fiscal de R$ 5,4 bilhões até 2020.

Agrados para uns, aperto para outros – e nem sempre a correta escolha entre uns e outros. Desse balaio, não dá para saber ainda o que vai sair. Mas o fato é que o governo já reconheceu a possibilidade (ou melhor, a necessidade) de revisar a meta fiscal do ano, fixada em um déficit de R$ 139 bilhões.

Quanto às reformas, há até quem se sinta animado com a maioria de 263 votos dada ao presidente nesta quarta-feira, embora tivesse ficado abaixo dos números alardeados pelos governistas e da proporção necessária para aprovar a proposta para a Previdência (308 votos). De fato, a aprovação a Previdência é até possível, mas não é garantida – assim como os tucanos, divididos quanto à aceitação da denúncia contra Temer mas mais afinados em relação à aprovação das reformas, outros integrantes da base parlamentar talvez tenham comportamento inverso.

Temer e seu time podem até amanhecer nesta quinta-feira mais aliviados. Mas, na economia o amanhã ainda está longe de ser tranquilo. E o depois de amanhã, só em de 2018.