O crescimento e a recessão de cada um

Cida Damasco

01 Junho 2017 | 12h38

 

Economistas, empresários, agentes dos mercados e, nesse momento, sobretudo políticos debruçam-se sobre os números do PIB para avaliar o significado do crescimento de 1% no primeiro trimestre sobre o anterior – em relação ao mesmo período de 2016, ainda houve queda, de 0,4%. Comedida, Rebeca Palis, coordenadora de Contas Nacionais do IBGE, faz questão de esclarecer que se trata de um aumento sobre uma base bastante deprimida e, na verdade, uma volta do PIB aos níveis do final de 2010. Taxativo, Temer decreta: a recessão acabou.

Mas de qual crescimento e de qual recessão estamos falando? Deixando de lado o fato de que crescimento é crescimento – e, portanto, uma boa notícia –, convém relativizar esses resultados e não embarcar nos arroubos do governo que, por razões óbvias, tende a maximizá-los. O crescimento do primeiro trimestre assenta-se basicamente sobre o PIB da agropecuária, que mostra os efeitos da safra recorde. E, por enquanto, nem o consumo das famílias nem o investimento deram as caras, como se diz por aí. Por mais que o agronegócio seja relevante para o Brasil e represente uma cadeia produtiva bastante ampla, não se pode dizer ainda que a economia, como um todo, esteja numa rota clara e consistente de crescimento. Além disso, alguns indicadores esparsos de abril não permitem contar com um segundo trimestre parecido com o primeiro – pelo menos em termos de números.

Aos olhos da população em geral, no entanto, a questão central é outra. Número contra número, o do desemprego também é bastante significativo. E, para ela, é exatamente esse que identifica melhor o real estado da economia. Segundo divulgou o IBGE também nesta semana, o País tinha, no trimestre entre fevereiro e abril, 14 milhões de desempregados, o que corresponde a 13,6% da população em idade de trabalhar – recorde para um trimestre encerrado em abril desde o início da pesquisa, em 2012. Trata-se de um portentoso aumento de 2,8 milhões de pessoas nesse contingente em um ano. O próprio IBGE ressalva que o momento é de “desaceleração” no crescimento da desocupação – traduzindo e resumindo o economês, um bom sinal. Mas 14 milhões de desempregados são 14 milhões de desempregados. Ainda estamos naquela fase em que quase todo mundo tem um parente próximo ou um vizinho à procura de emprego. Precisa dizer mais?

Independentemente das incertezas que cercam o governo Temer – quanto tempo vai durar, se durar como será seu comportamento e, se sair, o que virá no lugar  –. o fato é que a economia ainda tem um longo caminho a percorrer, antes de caracterizar uma recuperação e principalmente antes de garantir que essa recuperação chegue à vida real das pessoas. Até que isso fique evidente, pode-se até comemorar discretamente os números divulgados hoje. Mas, por enquanto, melhor não mexer muito nas previsões para o PIB do ano: algo em torno de 0,5% continua sendo uma boa aposta.