O Dia D e as dúvidas no dia seguinte

Cida Damasco

25 Outubro 2017 | 21h49

No terreno da economia, a quarta-feira passou sem surpresas. A queda de 0,75 ponto porcentual na taxa básica de juros, a Selic, por decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), está perfeitamente encaixada nas apostas do mercado e indica que o Banco Central caminha mesmo para encerrar o ciclo “estimulativo” da atividade econômica iniciado um ano atrás. Não que o andamento da economia já esteja no ritmo desejado – o comunicado do BC fala em “recuperação gradual”.  Nem que o juro de mercado, aquele da vida real, pago pelas pessoas físicas e pelas empresas, esteja nos níveis necessários.

Apesar de 9 quedas seguidas, a própria Selic é mais do que o dobro da inflação – 7,5% frente a 2,54% do IPCA, nos 12 meses encerrados em setembro, e 3%, nas estimativas para o fechamento do ano. E, em relação aos juros de ponta, a distância continua imensa: basta verificar que em agosto a taxa média cobrada no crédito às famílias ainda se sustentava em 35,6% ao ano, e no chamado segmento livre, atingia 62,3%. Cauteloso, o BC já deu pistas de que na reunião de dezembro a Selic terá uma baixa mais moderada, para 7% — daí em diante, a expectativa é de estabilização.

Na política, porém, foi um dia de sustos. Aparentemente, até interessados diretos passaram ao largo da decisão do Copom, que em outras ocasiões chegou a ser motivo de Fla-Flu. Ao longo do dia, manifestaram-se incertezas em relação ao Dia D do governo, na votação da segunda denúncia contra Temer no plenário da Câmara. A tática de corpo mole dos parlamentares, para não dar quórum à sessão,  que em outros momentos seria encarada apenas como manobra corriqueira, juntou-se à interrogação quanto à saúde do próprio presidente – internado no Hospital do Exército no meio do dia, para tratamento de uma “obstrução urológica”. Governistas e oposicionistas faziam-se a mesma pergunta: seria o caso de manter a votação ou adiá-la? Aquele “dia seguinte” sob controle – com Temer no comando do País até o final do mandato e Rodrigo Maia no comando da agenda econômica – por alguns momentos chegou a parecer incerto.

Passado o susto com a internação de Temer e garantida a rejeição da denúncia, as coisas começam agora a se configurar como elas realmente são. Sem exageros, mas também sem ilusões. O fim do mandato de Temer – ou o recomeço, conforme as avaliações e os avaliadores – certamente não será um passeio. O placar da vitória de Temer foi um pouco inferior ao da votação da primeira denúncia — 251 votos a favor do relatório recomendando o arquivamento da denúncia, frente a 263 na anterior. Além disso, se os parlamentares relutavam em dar condições de votação à própria denúncia, depois de todos os “agrados” providenciados pelo Planalto, quem garante que eles facilitarão a tramitação das medidas da pauta econômica? A bem da verdade, parte das medidas defendidas pela equipe econômica já foi esvaziada pelas próprias concessões de Temer a aliados mais reticentes, na boca da votação da denúncia, como a sanção do projeto do Refis, o programa de refinanciamento das dívidas tributárias, depois dos “ajustes” feitos no Congresso.

Não estamos falando apenas da reforma da Previdência. Até porque nem os mais otimistas ousam contar com muito mais do que a fixação da idade mínima para aposentadorias. A pauta inclui outras medidas cruciais para viabilizar a meta fiscal do ano que vem, um déficit primário de R$ 159 bilhões, e o respeito ao teto de gastos. É o caso específico do aumento da alíquota de previdência e do adiamento do reajuste salarial para os servidores públicos. Duas medidas com alto grau de impopularidade, tendo em vista a proximidade da campanha eleitoral de 2018 e as articulações partidárias embaralhadas como poucas vezes se viu.