O fim da recessão e a campanha

Cida Damasco

01 Março 2018 | 11h50

Sob o ponto de vista da legislação, a campanha eleitoral só começa em agosto. Mas, na prática, todo e qualquer dado sobre o desempenho da economia brasileira acaba funcionando como combustível para aquecer a disputa pela Presidência. Nesse sentido, o crescimento da economia em 2017 e as projeções para 2018 tendem a ser incorporados à plataforma do governo para as eleições deste ano. Seja o próprio Temer candidato à reeleição, seja o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, candidato a dar “sequência ao seu trabalho.”

Não que um crescimento de 1% do PIB, como o divulgado nesta quinta-feira pelo IBGE, seja espetacular — houve até uma certa surpresa com o resultado específico do quarto trimestre, uma variação de apenas 0,1% sobre o período anterior, no chamado piso das estimativas do mercado. Também não é suficiente para compensar a queda nos últimos dois anos, que chegou a 3,5%. Acontece que esse crescimento sela o fim da recessão e mantém a possibilidade de que, em 2018, a taxa de expansão chegue nas vizinhanças de 3%. Mais ainda, acentua o clima de “enfim, estamos em plena trajetória de recuperação”  — com uma alta de 1% no consumo das famílias e com uma redução na queda do investimento, que ficou em 1,8%, a menor desde 2014.

Se, no terreno da economia, as dúvidas agora referem-se à viabilidade de continuidade dessa processo, a partir de 2019, na política elas são de outra ordem. Como o governo pode “monetizar” esses ganhos já, ou seja, nas eleições presidenciais? Pai da retomada é o que não falta. O próprio Temer cobiça esse título, ainda que seu alvo, no momento, seja a pauta de segurança pública, que “fala” diretamente aos interesses do eleitorado. Meirelles tenta se apoiar no mesmo cacife, embora por enquanto seja visto mais como “candidato dos mercados” . Na outra ponta, como os candidatos de oposição tendem a se posicionar em relação à economia?

É ponto pacífico que, para consolidar a retomada, será necessário acertar as contas na área fiscal. Apesar de vários “senões” — entre eles, a confirmação ou não das projeções para as receitas não recorrentes, como a das concessões e privatizações –, tudo indica que será possível atravessar este ano sem grandes traumas. De 2019 em diante, porém, o cenário é mais incerto, principalmente tendo em vista as ameaças ao teto de gastos — já há quem defenda, a esse respeito, um “jeitinho” para permitir que o teto seja desrespeitado sem ser. Coisas do Brasil. A Instituição Fiscal Independente (IFI), órgão ligado ao Senado, por exemplo, trabalha com uma previsão de rombo fiscal para este ano cerca de R$ 10 bilhões abaixo da meta de R$ 159 bilhões, mas adverte que, se nada for feito, haverá estouro do teto de gastos no ano que vem, justamente na estreia do novo governo.

Para o (ou os) candidato do governo, as dificuldades de posicionamento em relação à economia, no meio desse cipoal de indicadores, referem-se ao chamado “daqui para frente”. Em relação ao que foi feito até agora, é inegável que dá para festejar os resultados obtidos em 2017. Sair da recessão não é pouco, como se sabe, assim como derrubar a inflação. Quanto ao futuro, trata-se de fazer o que não deu para fazer até agora — e é aí que as coisas se complicam. Em outras palavras, volta à roda a reforma da Previdência, tema indigesto para qualquer campanha eleitoral. Continua na roda a necessidade de geração de empregos, principalmente de maior qualidade e em ritmo mais rápido do que o observado até agora.

Para os candidatos da oposição que quiserem escapar dos extremismos, o ponto de partida será não desqualificar nem a retomada nem a fragilidade da área fiscal — afortunadamente, não parece mais ser hora para estelionato eleitoral. Mas o grande desafio será apresentar suas diferenças na busca desse ajuste, especialmente na área social. Como se pode ver, trata-se de caminhar num terreno bastante acidentado, que exige cuidados redobrados. O que está em jogo nesse momento, porém, para todos os candidatos, é a formatação de um projeto para a economia que permita a travessia de uma recuperação cíclica para uma trajetória de crescimento sustentado.

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