O primeiro susto

Cida Damasco

20 Junho 2017 | 18h18

Foi só um revés, tenta justificar o governo. No plenário, tudo será diferente. A surpreendente rejeição do relatório da reforma trabalhista, na Comissão de Assuntos Sociais do Senado (CAS), por 10 votos a 9, nesta terça-feira, acendeu um sinal de advertência para Temer, em relação às condições de levar adiante a agenda econômica no Congresso. Exatamente o argumento principal utilizado para mostrar que, mesmo no meio do terremoto político que todo dia produz mais uma fissura nas suas bases de sustentação, “o governo continua governando”.

Verdade que essa rejeição não quer dizer que o caminho da reforma trabalhista foi interrompido. O relatório segue para a Comissão de Constituição e Justiça e daí vai para o plenário do Senado. Também não quer dizer que o cenário mais provável tenha sido modificado, ou seja, a vitória da proposta do governo no final desse trajeto.

A questão, porém, é que em política as coisas não se passam unicamente no terreno do racional. Muito ao contrário. E o impacto da votação desta terça-feira é uma prova disso. Foi só um voto de diferença na comissão, mas quantas leituras e quantas interpretações! Quantas análises depois da sessão da Comissão, encerrada com Hino Nacional, gritos de “fora Temer” e todo o “cerimonial” da oposição cantando vitória.

Em primeiro lugar, pode indicar que nem a reforma trabalhista, aquela que já estava contabilizada na lista de vitórias do governo, está tão garantida assim. Que dirá então a reforma da Previdência, que ainda não ultrapassou as etapas já vencidas pela trabalhista, e está sujeita a um número muito maior de contestações, inclusive dentro das fileiras dos aliados de Temer.

Como o governo se encarregou de vender a tese de que chegou e está aí para fazer as reformas, pode-se imaginar o que significa a ameaça de que essa pauta não seja cumprida. Prova disso foi a reação dos mercados, com bolsa em baixa e dólar em alta, depois de um longo período de calmaria – em que nem malas de dinheiro circulando de lá para cá, bate-boca entre representantes dos poderes e outras cenas “inusitadas” de uma crise política que só faz piorar conseguiam impactar com força as mesas de operações das instituições financeiras. Aparentemente, mesmo “querendo acreditar” que a economia estava blindada, os agentes do mercado renderam-se nesta quarta-feira às evidências de que nada está garantido.

Outro fator a ser considerado é que, mesmo num universo bem reduzido, a votação na CAS pode ser vista como um indicador do risco de omissões e traições de integrantes da base aliada. Principalmente quando os temas esbarram nos interesses diretos de seus eleitores.

Como o próprio Temer fez questão de afirmar, é só uma etapa. Virão outras. Mas é também o primeiro grande susto. Virão outros?