O recuo do recuo

Cida Damasco

06 Julho 2017 | 16h23

Não que alguns décimos para cima ou para baixo mudem substancialmente a situação da economia brasileira. Mas o fato de o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, desistir de rever a previsão oficial de crescimento do PIB para este ano, alguns dias depois de manifestar essa intenção, mostra a dependência do governo do discurso de recuperação da economia. Lá em Hamburgo, nesta quinta-feira, para a plateia da reunião do G20, Meirelles anunciou que o governo vai manter a projeção de crescimento em 0,5%, embora o mercado já esteja apostando em 0,39%, e disse ainda que no último trimestre, a economia estará rodando a um ritmo superior a  2% sobre o mesmo período do ano passado.

Mas, afinal, que grande diferença há entre uma previsão de crescimento de 0,5% e outra, pouco abaixo disso? Ao que tudo indica, embarcar nesse movimento de redução das previsões, que vem sendo explicitado há semanas na pesquisa Focus, do Banco Central, enfraqueceria a tese de consolidação da retomada. E, por tabela, poderia até sugerir que é no mínimo exagerada a argumentação de que, apesar de tudo, a economia resiste e caminha rumo à recuperação.

O que se vê até agora, na verdade, é um desempenho que caracteriza, digamos, uma estabilização da atividade econômica. Mas num ponto bem baixo. Não que estabilização seja uma má notícia. Longe disso. Melhor uma estabilização do que o aprofundamento da recessão. Mas, ao contrário da torcida de muitos observadores, não está evidente um movimento firme e abrangente de recuperação. Ainda há indicadores apontando para direções opostas: é o caso, por exemplo, do aumento vigoroso nas exportações de veículos, com reflexos no aumento de produção das montadoras, convivendo com recordes de inadimplência dos consumidores, mesmo depois da liberação dos saques das contas inativas do FGTS.

E mesmo essa estabilização pode ser afetada a qualquer momento. Seja pela reação do governo à crise fiscal – que saltou das estatísticas para a vida real, com a paralisação de serviços básicos do governo, como a emissão de passaportes e as atividades da Polícia Rodoviária Federal. Seja pela atitude de “pé atrás” disseminada entre consumidores, empresários, investidores em geral, com temor do desfecho da crise política e incerteza sobre “o dia seguinte” – ainda que as apostas para um eventual “dia seguinte” comecem a convergir para a chegada ao Planalto do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e para uma provável manutenção da atual equipe econômica.

No front específico das contas públicas, uma revisão para baixo do crescimento do PIB teria um outro efeito – em cascata viria a revisão da projeção de crescimento de receitas, o que exigiria uma “adequação” dos componentes da meta fiscal. Tarefa bastante complicada, tanto pelo lado das receitas como das despesas. Obviamente, um aumento de impostos, alternativa clássica para esses momentos de rombo no caixa, não é do agrado de ninguém, nem do cidadão comum nem do empresariado. Pode até vir por aí algo como um reajuste da Cide, que incide sobre vendas de combustíveis, mas algo mais potente dificilmente será adotado. Tudo que Temer não pode agora é desagradar aos setores que, mal ou bem, ainda não retiraram as bases de sustentação do seu governo.