Passou do ponto

Cida Damasco

05 Outubro 2017 | 19h30

Tenho ouvido de muita gente desabafos sobre a exaustão com o noticiário sobre corrupção e suas várias faces – malas de dinheiro, delações, prisões etc. Um misto de desânimo e conformismo com essa quadra da vida política, muito longe do espanto e da excitação manifestadas quando os primeiros executivos e políticos chegaram a Curitiba, escoltados pelo japonês da Polícia Federal. Mesmo quando o preso do dia é um refinado dirigente esportivo, acusado de participar de esquema para comprar os Jogos Olímpicos no Rio.

Esse cansaço parece contaminar inclusive as reações à tramitação da segunda denúncia de corrupção contra Temer e ao toma-lá-dá-cá para barrá-la no Congresso – escancarado na romaria de 40 parlamentares ao Palácio do Planalto, em um único dia.

Temer atribuiu os encontros a uma “rotina de diálogo entre os Poderes”. Como explicação, apenas uma frase de efeito. Para muitos observadores, os sinais são de uma troca de favores por votos contra a denúncia. Esse “hackaton” do fisiologismo teria sido apenas uma parte visível das negociações que estão sendo feitas em Brasília desde a famigerada delação dos irmãos Batista – e que resultaram, só para dar um exemplo, na multiplicação das concessões ofertadas pelo Refis, o programa de parcelamento de dívidas com o governo federal. Segundo cálculos da Fazenda, o novo Refis deverá resultar numa perda de arrecadação de R$ 3 bilhões neste ano e R$ 900 milhões no próximo.

Apesar de todo esse conformismo, às vezes alguma coisa sai dos eixos e põe às claras a estreita ligação entre a deterioração do cenário político e a economia. Foi o que aconteceu agora com pelo menos dois pontos suprimidos do texto da Medida Provisória do novo Refis, que passou pela Câmara, foi aprovada pelo Senado nesta quinta-feira e encaminhada para sanção presidencial. O primeiro deles, retirado ainda no plenário da Câmara, abria caminho para que suspeitos de corrupção conseguissem parcelar e obter descontos na dívida com a União. E o segundo concedia o perdão de dívidas tributárias para igrejas e entidades religiosas – terreno fértil onde candidatos costumam colher votos nas campanhas eleitorais.


Apenas dois “jabutis”, dirão alguns. Nos dois casos, porém, houve fortes pressões para a retirada dos benefícios. É como se alguém dissesse: “Assim não dá, passou do ponto”. Tudo indica que até o final da tramitação da denúncia contra Temer virão por aí outras pressões para aliviar este ou aquele setor, derrubar esta ou aquela medida, providenciar este ou aquela concessão. Que pelo menos apareçam mais inconformados para falar: “Assim não dá, passou do ponto.”