PIB: discurso para todos os lados

Cida Damasco

01 Dezembro 2017 | 11h30

Num momento em que o painel da candidatos à presidência da República troca de figuras com rapidez como nunca se viu, o desempenho da economia vai assumindo um papel muito particular nessas definições. As perguntas mais frequentes referem-se à chamada situação. Afinal de contas, quem é o candidato do governo? Quem vai defender integralmente o legado econômico de Temer e o próprio Temer? Quem vai defender a política econômica de Temer e, ao mesmo tempo, se distanciar do presidente e dos seus anêmicos 3% de aprovação nas pesquisas de opinião? A oposição está posicionada, obviamente, sabe que vai bater no governo, mas também terá de afinar seu discurso conforme o andar da atividade econômica.

Nesse sentido, o PIB do terceiro trimestre, divulgado nesta sexta-feira, tem munição para todos os lados da disputa. O crescimento de apenas 0,1% sobre o trimestre anterior, abaixo das expectativas, pode ser visto, por um lado, como uma prova de que a retomada não ganhou aquele fôlego que a torcida alardeava – embora o desempenho do terceiro trimestre tenha muito a ver com a revisão, para cima, dos dados dos períodos anteriores. O avanço sobre o mesmo trimestre do ano passado é bem maior, 1,4%, mas também deve ser visto com cautela, até porque a base de comparação é favorável.

Alguns sinais específicos apontam, porém, para uma trajetória positiva lá à frente – o consumo das famílias continua sendo o destaque, mas o investimento finalmente pôs a cara para fora, depois de 15 trimestres de queda. Menos mal. Para muitos analistas, se nada nem ninguém atrapalhar, está mantido o cenário da retomada. Lenta e gradual, mas ainda assim favorável.

Para efeitos eleitorais, contudo, essas nuances têm significado limitado. Do lado da população em geral, o que vale mesmo é a percepção de melhora. E isso depende substancialmente do comportamento do mercado de trabalho. Na mesma linha do crescimento do PIB, o mercado vem apresentando uma melhora sistemática mas lenta, sustentada pela criação de vagas informais. O que quer dizer empregos de menor qualidade e menor rendimento. A taxa de desemprego no trimestre encerrado em outubro, divulgada nesta quinta-feira pelo IBGE, corresponde a 12,2% da população economicamente ativa, abaixo dos 12,8% do trimestre imediatamente anterior, mas ainda acima dos 11,8% de um ano atrás.

Concretamente, ainda há no País 12,7 milhões de pessoas em busca de ocupação, quase 700 mil a mais do que um ano antes. É gente que não acaba mais, boa parte situada nos estratos superiores de qualificação e remuneração, com opiniões que tendem a se espraiar. O medo do desemprego ainda não abandonou totalmente os trabalhadores. Além do mais, não há notícia de que a reforma trabalhista esteja sendo compreendida como um incentivo ao emprego pelo conjunto da população – atenção, não estamos falando nem em mercados nem em setores empresariais.

Se esse quadro não se alterar significativamente até meados do ano que vem, tudo indica que a atividade econômica pode até esquentar os debates na campanha eleitoral, mas haverá discurso para todos. As oposições, sem surpresa, vão vender a tese de que só mudando a política econômica será possível reconduzir o País ao rumo do crescimento acelerado. E a situação – pelo menos a ala patrocinada por Temer – insistirá que uma virada na política econômica vai pôr a perder tudo o que foi conquistado até agora – por essa visão, consolidar e tendência de crescimento depende do destino das reformas constitucionais, principalmente da Previdência. No meio das discussões sobre o desembarque do governo e a candidatura de Geraldo Alckmin à Presidência, parte do PSDB já tenta emplacar uma “coluna do meio” na economia: uma política econômica não muito distante da atual, temperada com alguns “acenos” à centro-esquerda.