Quarta-feira de (más) surpresas

Cida Damasco

16 Maio 2018 | 19h19

O juro básico chegou ao térreo antes do previsto e parou em 6,5% ao ano, na reunião do Copom desta quarta-feira — encerrando um ciclo de 12 reduções consecutivas desde outubro de 2016, que levou a taxa Selic para o nível mais baixo desde 1996. Segundo as apostas da maior parte do mercado, haveria um novo e último corte, de 0,25 ponto. O Índice de Atividade Econômica do Banco Central, o IBC-Br de março, também divulgado hoje, mostrou uma queda de 0,74% no mês e de 0,13% no trimestre, bem abaixo das expectativas do mercado.

Apesar da persistência da inflação em nível inferior à meta oficial e da atividade econômica morna, tudo indica que o Banco Central rendeu-se aos temores de agravamento da instabilidade do cenário externo, que se reflete na escalada do dólar — contrariando, inclusive, a leitura que boa parte dos analistas fez da fala do próprio presidente do BC, Ilan Goldfjan, há poucos dias. É certo que o Brasil não é a Argentina, mas, por via das dúvidas…

Até alguns meses atrás, o roteiro para 2018 era bem diferente. Chegou-se a imaginar uma estabilização da taxa Selic em 7%, depois em 6,5% e por fim em 6,25%, e um crescimento do PIB de 3% e até mais. Para as aspirações eleitorais do governo, esse cenário era visto como favorável. Embora a população em geral desconfie da queda dos juros — até porque, na ponta, as taxas continuam nas alturas –, uma melhora da atividade econômica, com reflexos no mercado de trabalho, poderia ser utilizada como peça de campanha dos candidatos próximos ao Planalto. Por esse raciocínio, haveria, perto das eleições, um reconhecimento efetivo, por parte dos cidadãos comuns, de que a economia estava na trilha firme da retomada.

O comportamento da economia, porém, está fugindo a esse roteiro. A queda da taxa Selic, estancada na reunião desta quarta-feira, não foi acompanhada nas mesmas proporções pelos juros do dia a dia. E, mesmo com as esperanças depositadas no cadastro positivo e outras medidas particulares adotadas pelo BC, tudo leva a crer que a concentração bancária tão cedo não deverá permitir uma mudança significativa nesse quadro. Pior: as dúvidas a respeito dos juros, agora, concentram-se em quando haverá a volta do parafuso. Ou seja, quando a Selic voltará a subir, mesmo que pouco.

Quanto ao andamento da economia, já se vê, pelas projeções dos analistas, que o clima esfriou mesmo. A expectativa é que o PIB do primeiro trimestre, a ser anunciado daqui a duas semanas, não vá além de um modesto 0,5%. Mais para estabilidade do que para crescimento. Por isso, já está em curso uma rodada de revisões de estimativas para o ano. Quem falava em 3% já passou para 2,5% e quem estava nessa posição, recuou para mais perto de 2%. Ou seja, antes mesmo que a retomada fosse percebida pela população, ela já perdeu o fôlego.

Uma situação nada confortável para quem vai defender as cores do governo nas eleições. Pelo MDB, se vingar a alternativa de candidatura própria, será o próprio Henrique Meirelles que, por sinal, estaria disposto a lembrar, na campanha, que também jogou no time de Lula. Escaldados, os mercados não querem nem ouvir falar em qualquer programa que cheire a populismo, mas os eleitores comuns aguardam algum alento para o curto prazo.