Que venha 2019

Cida Damasco

05 Abril 2018 | 09h54

Com a decisão histórica da longa sessão de quarta-feira no Supremo Tribunal Federal (STF), as incertezas que decorrem do futuro de Lula ficam certamente reduzidas. Mas quem imaginar que elas estão desfeitas, corre o risco de se enganar mais uma vez, repetindo o que aconteceu desde a guerra eleitoral de 2014. A próxima fonte de preocupações é, sem dúvida, o desdobramento dessa decisão sobre a eleição de 2018, sobre o cenário político em geral e, em consequência, sobre o cenário econômico.

Verdade que, apesar da campanha de Lula continuar nas ruas como se fosse para valer, só os mais crédulos contavam ainda com a possibilidade de ele escapar da Lei de Ficha Limpa e ter sua candidatura confirmada. Nos bastidores petistas, já se discutia há um bom tempo quem será o Plano B, embora a ordem fosse, em público, afirmar e reafirmar o Plano A. Mesmo que tendência dentro do partido ainda seja de uma prorrogação dessa estratégia, o fato é que, mais dia menos dia, o PT terá de escancarar como participará das eleições sem Lula — o que, na prática, elimina um grande ponto de interrogação.

O comportamento dos mercados dá bem a medida do humor de investidores em relação ao tema. Nesta quarta-feira, em pleno Dia D de Lula, houve tremores tanto nas cotações do dólar como nas bolsas de valores, reforçados pela influência externa da dura reação da China às perigosas estripulias de Trump — mas, no final do dia, as variações ficaram próximas de zero. Nada próximo do terremoto que muitos temiam, até porque o que interessa mesmo aos mercados é Lula inelegível e longe da campanha nas ruas — e pelo menos a primeira parte já estava dada, segundo a maioria das avaliações. O aval do STF à prisão em segunda instância veio dar a garantia de que o ex-presidente não estará nos palanques para turbinar a candidatura de quem for escolhido para a missão de substituí-lo na cabeça de chapa petista.

Dito isso, volta-se à velha pergunta: o que virá em seguida? Analistas das mais variadas colorações concordam em que pode até haver uma trégua, mas está muito longe da pacificação no cenário político — essencial para garantir uma tranquilidade duradoura ao cenário econômico. Amplificadas pelas redes sociais, estão cada vez mais exacerbadas as divisões da sociedade, os conflitos entre os Poderes, a conflagração do próprio Judiciário. Com a agravante do ensaio de volta à cena dos militares.

As ruas que se manifestaram contra Lula, em tom mais alto do que as que apoiaram o ex-presidente, podem até se sentir momentaneamente vitoriosas. Mas não há chance de que o dia seguinte tenha aquele ar de “bem, agora que está tudo resolvido, vamos voltar ao normal.” Ainda leva algum tempo até que o quadro eleitoral ganhe contornos mais definidos. Não só com a substituição de Lula por outro apadrinhado seu, ou com a improvável formação de uma frente das esquerdas, mas também com a iminente chegada do ex-presidente do STF Joaquim Barbosa — com qual discurso, difícil saber — e com a acomodação da base governista em torno de uma candidatura, depois do novo cerco a Temer.

Nesse terreno ainda movediço, é evidente que a previsão para a economia no futuro próximo não é de um “passeio”. Mas a caminhada continua. A atividade econômica mantém-se na linha da retomada, ainda que com uma velocidade menor do que se deseja e se precisa. Os investimentos, não aqueles obrigatórios para repor equipamentos já ultrapassados mas os mais estratégicos, dependentes de regras claras e firmes, demoram a deslanchar. A administração da área fiscal esbarra em “pegadinhas” do Congresso, como as recentes mudanças no refinanciamento de dívidas de pequenas e médias empresas e produtores rurais, entre outras, que produziram um impacto de R$ 13 bilhões no Orçamento deste ano. Outras medidas de maior alcance, como a privatização da Eletrobrás, tendem a ser “esquecidas” nos canais do Legislativo, quanto mais quente se tornar o clima eleitoral.

Nesse cenário, tudo o que se pode pedir é que venha 2019. E não se trata de clamar pelo óbvio: afinal de contas, nos últimos dias ficou claro que há muita gente querendo rodar o calendário para trás.