Realidade e percepção

Cida Damasco

08 Dezembro 2017 | 17h17

 

Faça um teste. Pergunte a qualquer consumidor se a inflação está em baixa e a resposta será quase sempre um sonoro não. Dificilmente haverá um reconhecimento, por parte dos cidadãos comuns, dessa realidade – ou seja, que os preços estão subindo num ritmo muito mais lento do que pouco tempo atrás.

Para eles, queda da inflação costuma ser confundida com queda de preços. Além disso, poucos sabem que o IPCA é uma média e, portanto, comporta diferenças expressivas dependendo principalmente da faixa de renda e, por tabela, da cesta de consumo do cidadão. O levantamento do IBGE abrange famílias com rendimento de 1 a 40 salários mínimos, em 10 regiões metropolitanas, mais Goiânia, Campo Grande e Brasília. Gastos com educação e transporte, por exemplo, pesam muito mais para famílias com filhos em idade escolar do que para idosos.

Independentemente da percepção, porém, o impacto da queda da inflação sobre a renda disponível das pessoas, nas proporções observadas ao longo deste ano, é vigoroso. E, nesse caso, quanto maior for a participação de alimentos e outros gastos básicos no orçamento doméstico, maior será esse impacto. Por mais que os salários e/ou a remuneração dos trabalhadores por conta própria continuem contidos pela ainda fraca atividade econômica.

Afinal de contas, os preços de alimentos e bebidas registraram, em novembro, a sétima deflação seguida – a sequência mais longa desde o início da pesquisa, em janeiro de 1994. A inflação do mês poderia ter sido ainda menor, sem a pressão das tarifas de energia elétrica (aumento de 4,21% em novembro) e dos preços do gás de botijão (alta de 1,57%), gasolina (2,92%) e etanol (4,14%) – nos três últimos casos, consequência direta da política de alinhamento internacional e recomposição de margens da Petrobrás.

Só para efeito de comparação, com uma variação de 0,28% em novembro, as taxas acumuladas em 11 meses e 12 meses atingiram, respectivamente, 2,50% e 2,80% — números que, no início de 2015, correspondiam a apenas duas vezes a alta do IPCA num único mês. Além disso, o resultado de novembro abriu a possibilidade de que o ano termine com uma inflação abaixo do piso da meta (3% a 6%) – o que, pela primeira vez, faria o presidente do Banco Central ter de enviar uma carta de explicação ao ministro da Fazenda. Algo impensável até pouco tempo atrás, quando a preocupação era justamente o inverso, ou seja, evitar justificativas pelo estouro da meta.

O governo, sempre que pode, aponta a derrubada da inflação como uma das provas do acerto da política econômica, especialmente da política monetária adotada pelo Banco Central. Faz todo sentido, mas não dá para ignorar, contudo, o papel decisivo da recessão nessa trajetória da inflação.