Se não fossem as incertezas

Cida Damasco

09 Junho 2017 | 16h51

Quando se observa a trajetória da inflação nos últimos meses, fica claro que, por esse ângulo, uma derrubada dos juros mais forte no último Copom seria plenamente justificada. Afinal de contas, o IPCA de maio, de 0,31%, embora mais elevado que o de abril por força do fim do desconto nas contas de luz, é o mais baixo para o mês desde 2007. E a taxa acumulada em 12 meses, de 3,6%, também a menor desde maio de 2007, está quase 1 ponto abaixo do centro da meta oficial de 4,5% — aquela que vinha sendo perseguida há um bom tempo e parecia inalcançável.

Além disso, não há no horizonte uma ameaça de aquecimento excessivo da atividade econômica: bem ao contrário, a inflação nesses níveis é resultado do processo de esfriamento, melhor dizendo, de congelamento dos dois últimos anos.

O que fez, então, o Banco Central indicar uma freada no ciclo de redução da taxa básica de juros, a Selic? Aparentemente o que ele explicou  no comunicado da decisão do Copom e repetiu na ata divulgada nesta semana. Incertezas. E incertezas com o cenário político, com o futuro das reformas, principalmente da Previdência, e de outros “ajustes necessários” da economia.

Alguns analistas consideraram essa atitude do BC cautelosa demais, tendo em vista o comportamento do binômio inflação/crescimento. Outros argumentam que, nesse momento, não seria razoável considerar o andamento das reformas no Congresso na decisão sobre juros. Em entrevista ao jornal Valor Econômico, Tony Volpon, ex-diretor do BC e atual economista-chefe do UBS,  argumenta que o impacto das reformas só será determinante para ciclos futuros de política monetária.

Há quem diga que o próprio time do Planalto, mais do que interessado em caçar pautas positivas, teria ficado descontente com a decisão do BC de explicitar que os juros cairão mais devagar, sob influência das tais incertezas. Está na cabeça de muita gente o que ocorreu em outros momentos de fraqueza da economia, quando o BC demorou demais para derrubar os juros e depois foi obrigado a correr atrás do prejuízo.

O fato, contudo, é que o desafio da política monetária agora é de bom tamanho: calibrar a indiscutível necessidade de dar impulso à atividade econômica num cenário de riscos políticos — aos quais não dá para fechar ostabilidade – e aí não dá para fechar o olho para os fatores políticos. Ao que tudo indica, foi nesse terreno que o BC atuou na última reunião.