Um olhar para a Argentina

Cida Damasco

10 Maio 2018 | 17h40

Os brasileiros podem até fingir indiferença, mas não deixam de acompanhar o que se passa com os vizinhos argentinos. Aqueles vizinhos que gostamos de ironizar, mas estão sempre presentes em nossas vidas. Uma esticadinha nos feriadões para curtir Buenos Aires? Um programa em Mendoza para os amantes de vinho? Uma partida de futebol, aqui ou lá, para alimentar aquela rivalidade histórica? Sim para todas as perguntas.

Portanto, se há crise econômica que bate em nossos corações e mentes, fora as do Brasil, sem dúvida é a da Argentina. Exatamente como a que se desenrola neste momento. Alguns, mais “pragmáticos” pensam logo em quantos pesos conseguirão comprar com seus dólares na próxima viagem. O sentimento, porém, é que essa nova crise cambial pode representar uma volta ao processo de deterioração da economia argentina — que, pelo lado negativo, acabou aproximando o Brasil daquele país “quase europeu”, cujos indicadores sociais, mesmo com todos os problemas, costumavam ser motivo de inveja para nós.

Não bastasse essa identificação, vigorava especificamente na economia, lá pelos idos dos anos 80, o chamado efeito Orloff. O anúncio da vodca Orloff que deu origem à expressão “eu sou você amanhã”, porém, é coisa do passado. E, tudo indica, o efeito Orloff — que caracterizava a repetição, no Brasil, com alguma defasagem, das crises ocorridas na Argentina — também é.

Apesar de pontos em comum, as duas economias não se encontram em situações parecidas, como há algum tempo. Por que, então, esse tremor e essa tensão, quando o dólar dispara lá na Argentina e o governo, numa espécie de déjà-vu, vai bater às portas do Fundo Monetário Internacional (FMI)? Por que esse Boca-Rivers, replicando o nosso Fla-Flu?

Antes de mais nada, há sempre o temor que, de uma maneira ou de outra, o Brasil acabe indo na esteira da Argentina. E essa sensação resiste até a uma avaliação racional do desempenho econômico dos dois países. As reservas brasileiras superam US$ 380 bilhões, frente a cerca de US$ 30 bilhões, das reservas líquidas argentinas; o déficit em conta corrente é inferior a 0,5% do PIB, por aqui, e beira 6% por lá; e a inflação continua abaixo de 3% no Brasil e já supera os 25% na Argentina.

Além disso, há o fator Macri contaminando boa parte das análises. Entusiastas de Mauricio Macri, de um lado, passaram um bom tempo incensando seu governo, como se bastasse a vontade do presidente para impor um programa liberal e o Congresso fosse simplesmente assinar embaixo das suas medidas, mesmo as tidas como mais “impopulares” — as reformas tributária e da Previdência passaram, mas a trabalhista elevou a temperatura no Parlamento e nas ruas. Dois pilares do ajuste de Macri, pouco contestados, também produziram efeitos colaterais: a correção das tarifas públicas acabou mantendo a inflação em níveis elevados e a alta dos juros pressionou o endividamento. E agora, para piorar, sem ter se safado desses desarranjos, a economia argentina sofre os efeitos das mudanças no cenário externo. A perspectiva de elevação dos juros nos Estados Unidos desencadeou uma forte valorização do dólar e um redirecionamento dos ativos nos mercados, que está castigando os países emergentes e, em particular, a Argentina.

Os críticos mais duros de Macri, no outro extremo, chegam a atribuir a nova crise cambial à ação do atual presidente — aliás, quase “festejam” a crise — como se ela não fizesse parte desse contexto mais amplo. É fundamental destacar, nesse aspecto, que a Argentina nunca se livrou da chamada dolarização, o que maximiza o impacto de qualquer tranco no câmbio. Dolarização na veia, com a livre circulação dessa moeda, no dia a dia, e com a população guardando dinheiro vivo em casa, para atravessar eventuais turbulências.

Apesar de todas essas considerações, não dá para tratar os problemas da Argentina como “apenas” da Argentina, do tipo “isso é com eles”. A Argentina é o terceiro parceiro comercial do Brasil, atrás da China e dos Estados Unidos. E, em setores específicos, como o automobilístico, o peso ainda é maior: mais de 70% das exportações das montadoras instaladas no Brasil vão para a Argentina, e esse movimento tem sido providencial para ajudá-las a se recuperar do tombo dos anos de recessão. Além disso, há um bom número de companhias com negócios cá e lá, que estão sujeitas a enfrentar dificuldades. E, numa escala menor, as atividades de turismo podem se ressentir de uma possível redução do fluxo de argentinos para o sul do País.

Enfim, não se trata de uma final de Libertadores entre um time brasileiro e outro argentino, em que a vitória tem um sabor especial — é como ganhar duas vezes, dizem os mais fanáticos. Nesse campeonato, não há dúvida: todos perdem.