Vai levando

Cida Damasco

19 Outubro 2017 | 17h22

E os mercados continuam apegados ao mesmo mote. A economia vai bem, independentemente das turbulências no cenário político. A volta de Aécio ao Senado e a rejeição da denúncia contra Temer pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado foram “lidas” pelos investidores como continuidade da política econômica e, portanto, bola para frente nas apostas.

Analistas do pedaço recorrem com insistência à tese do “descolamento” para explicar o desempenho favorável dos mercados, em meio à interminável crise política. Fecham os olhos para a errática ação do governo Temer no campo fiscal, com a multiplicação das pressões políticas e judiciais sobre a turma do Planalto. A ordem é tudo para “afagar” os parlamentares e, com isso, manter o presidente no poder, mesmo com sacrifício da política fiscal – tome-se como exemplo o atraso no envio ao Congresso das medidas anunciadas há dois meses para evitar a implosão das contas públicas no ano que vem.

Como de costume, a divulgação, nesta quarta-feira, do Índice de Atividade Econômica do BC, o IBC-Br, tido como indicador antecedente do PIB, com uma queda de 0,38% de julho para agosto, não mexeu com os mercados: índice Bovespa e dólar terminaram o dia em relativa estabilidade. Também como de costume, os negócios nesta quinta-feira estão refletindo mais o cenário lá fora, com o enfraquecimento das commodities e as tensões na Catalunha, do que aqui dentro.

Mas é possível perceber um certo abalo nas convicções de parte dos analistas em relação ao fôlego da retomada da economia. Eles começam a temer uma interrupção da trajetória de crescimento da economia, com base nos indicadores de agosto. E já falam em contaminação da crise política.

É preciso, contudo, qualificar tanto essa trajetória como também essa interrupção. Apesar de todo o entusiasmo e de toda a torcida, especialmente depois dos resultados do PIB no primeiro e no segundo trimestres, a retomada já não era consistente e, portanto, estava sujeita a alguns tropeços. Exatamente como os que ocorreram em agosto.

A melhora na atividade econômica continua escorada no consumo, favorecido pelos saques das contas inativas do FGTS, que determinaram a recomposição das finanças dos consumidores, pela queda da inflação dos alimentos, que liberou uma parcela dos orçamentos domésticos para outras compras, e também pela queda dos juros — mesmo com velocidade bem inferior à da Selic, a taxa básica. Há também uma inegável contribuição do alívio no desemprego, como mostram os números do Caged de setembro – criação de pouco mais de 34 mil vagas de trabalho com carteira assinada, no melhor resultado para o mês em três anos. Fatores que estão ajudando a economia a reagir, mas ainda a um ritmo mais lento do que muitos esperavam. E sujeito a alguns hiatos.

O impacto da crise fiscal na economia pode até se ampliar nos próximos anos, ainda que o governo tenha conseguido algum alívio nas contas de 2017, com a reação favorável da arrecadação nos últimos dois meses. Tudo indica que o governo vai “passar raspando”, como se dizia antigamente, e cumprir a meta para 2017, de um déficit primário de R$ 159 bilhões. Fala-se até em antecipar alguns gastos de 2018.

Continua de pé, no entanto, o risco de que a economia brasileira bata num muro logo adiante, se a crise do setor público não for convenientemente administrada – em outras palavras, se não houver algum encaminhamento para a Previdência. E quanto mais o governo “age” para chegar ao final do mandato, mais ele se complica na gestão fiscal.