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Rota 2030, a novela foi prorrogada mais uma vez

Cleide Silva

10 Abril 2018 | 19h43

Já vai para quase quatro meses o atraso no lançamento da nova política industrial do setor automotivo, o Rota 2030. A esperança de que o programa seria anunciado nesta quinta-feira, em encontro do presidente Michel Temer com dirigentes de montadoras já foi por ladeira abaixo. O evento foi cancelado hoje.

Nova data deve ser marcada para o fim do mês, mas não há garantias. Agora, a justificativa foi a troca do ministro da Fazenda – de Henrique Meirelles para Eduardo Guardia, e este pediu mais tempo para avaliar o programa. Não se admirem se a batata quente ficar para o próximo governo.

Meirelles foi ferrenho crítico do programa, por prever, por exemplo, incentivos para as montadoras investirem em pesquisa e desenvolvimento. Membro de sua equipe chegou a dizer que o Brasil não precisa de indústria automobilística, pois países como Chile e Austrália não têm e tudo funciona bem com importados.

O autor da frase não opinou sobre o que ocorreria, por exemplo, com os cerca de 1,3 milhão de trabalhadores do setor, entre vagas diretas e indiretas. E nem que todos os países mais ricos e desenvolvidos têm indústria de carros forte.

Não estou dizendo que a indústria automobilística é a salvação do Brasil. Mas é no mínimo falta de conhecimento achar que ela não faria falta para o País.

Encruzilhada. Por outro lado, o governo também está numa encruzilhada. Tem assistido o Congresso minar programas que resultariam em corte de gastos e, em meio a esse cenário, tem de decidir sobre subsídios a uma indústria tida como rica.

O que está enroscando no Rota 2030 é a manutenção de incentivos dados no programa anterior, o Inovar-Auto. Entre os quais, empréstimos de R$ 1,5 bilhão ao ano para investimentos em pesquisa e desenvolvimento.

As montadoras afirmam que, nos cinco anos do Inovar, investiram R$ 25 bilhões em P&D, mais que o triplo do desembolso recebido do governo, de R$ 7,5 bilhões. Mas já estariam dispostas a aceitar valor inferior a esse.

Um exemplo desse investimento foi dado pelo presidente da Volkswagen América do Sul e Brasil, Pablo Di Si. O novo Polo, lançado recentemente e produzido na fábrica Anchieta, no ABC paulista, consome 20% menos combustível que o modelo anterior. É 12 quilos mais leve (o que ajuda a reduzir o consumo). Tem 31% a mais de torque e desempenho. E recebeu cinco estrelas no teste de segurança do Latin Ncap.

“Poderíamos fazer todos esses desenvolvimentos na Alemanha, nos Estados Unidos ou na China, mas fizemos no Brasil”, diz o executivo. “Sem o Rota, muitas montadoras vão comprar esse tipo de serviço fora, ou seja, os carros brasileiros vão ter tecnologia, mas o conhecimento não ficará aqui.”

Pode ser uma chantagem das montadoras? Outro choramingo para conseguir benefícios? Quem quer pagar para ver?

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