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Descrédito

Iuri Dantas

quinta-feira 21/08/14

Governo volta a tomar medidas para estimular aumento do consumo e tenta reativar a economia com injeção bilionária de dinheiro a juros altos.

Amparado por uma crença inabalável na sua capacidade de fazer a economia andar, o governo mantém acesa a fornalha de pacotes. O Banco Central injeta dezenas de bilhões no mercado de crédito, estimulando a oferta de empréstimos e financiamentos. O Ministério da Fazenda, aos trancos e barrancos, cria novos instrumentos para capitalizar empresas e, consequentemente, incentivar a venda de imóveis e automóveis em módicas prestações.

Crédito não é dinheiro no bolso do cidadão. Mas dinheiro a um preço determinado. Esse custo segue a baliza da taxa básica de juros, definida pelo mesmo Banco Central. Hoje, a Selic encontra-se em 11% ao ano, patamar superior ao que a presidente Dilma Rousseff encontrou quando chegou ao Planalto. A situação é inédita em um mandato presidencial desde a estabilização da economia em 1994 e visa justamente reduzir o volume de empréstimos, indo na contramão do que o próprio BC anunciou nas últimas semanas.

Percebe-se, portanto, que o governo estimula consumidores a se envidarem para acelerar a economia. A um preço bem alto. Quem procurou o gerente do banco para contratar financiamento no mês passado pagou quase quatro vezes a Selic: a taxa média chegou a 43% ao ano. É a mais alta desde março de 2011. O pessoal do ramo diz que falta demanda por empréstimo, mas atribui a situação ao maior consumo.

Mais de um em cada quatro brasileiros tem um papagaio na praça. Com os pacotes dos últimos dias, a equipe econômica indica, no mínimo, considerar esse número irrelevante. Prova disso é que ao apresentar as medidas, técnicos do BC e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, defendem as ações como corretas neste momento. Afastam, ainda, relação com o pleito presidencial que se avizinha.

Ao menos nos microfones, nenhum funcionário do governo demonstra interesse em angariar o voto do sujeito que, cansado de tomar a condução lotada ainda de madrugada, conseguirá um financiamento de quatro, cinco anos, a juros terríveis para ter em mãos seu automóvel antes do dia 5 de outubro. Complementa o contexto da história lembrar que bancos, montadoras e empreiteiras representam grandes doadores de campanha. Sem coincidências neste campo, o foco dos novos pacotes, afirmam aqueles a soldo do Executivo, é exclusivamente econômico.

Economistas das mais diferentes matizes afirmam que o modelo de crescimento baseado no consumo bateu no limite. Dizem isso há um bom tempo. Um dos economistas mais influentes do País chegou a dizer, há 18 meses, que a economia se recuperaria a partir dos investimentos.

Os investimentos não decolam porque o empresariado não confia na condução da economia e vê menos consumidores para seus produtos aqui e lá fora. Há menos gente procurando emprego, a produtividade do trabalhador brasileiro segue estagnada. Se produzir bens manufaturados no Brasil era 3% mais barato do que nos Estados Unidos em 2004, hoje custa 23% mais, de acordo com o Boston Consulting Group.

Com os pacotes, o governo mostra ainda que falta dinheiro nos cofres do Tesouro Nacional para reduzir a fatia de impostos sobre os bens fabricados em Terra Brasilis e assim torna-los mais baratos e competitivos no mercado global. O dinheiro sumiu depois de dezenas de pacotes e benefícios setoriais, todos baseados em uma interpretação bem esgarçada da Lei de Responsabilidade Fiscal, criada para evitar esse tipo de situação. Sem falar, claro, nas manobras do Tesouro para fechar as contas públicas e o aumentos gastos públicos para manter, entre outras coisas, a equipe que reflete e prepara as medidas que saem do forno de tempos em tempos.

Enquanto isso, o mundo lentamente deixa a crise para trás, com o Brasil perdendo terreno em mercados importantes. Em algum momento da vida, o País terá que se tornar mais competitivo e disputar prateleiras de outros países, sob pena de se tornar apenas produtor de commodities agrícolas e minerais. Essa agenda é algo com que este governo, e a bem da verdade nenhum outro Executivo recente, se preocupou muito.

Uma economia fechada, como a brasileira, faz há anos uma opção pelo endividamento interno para aquisição de bens cada vez mais caros e menos competitivos produzidos localmente. Os pacotes recentes mostram insistência em um modelo que se mostrou incapaz de reanimar o PIB. A 45 dias das eleições presidenciais, a ação foi avaliada como de pouco impacto por economistas experientes. Por outro lado, as medidas atendem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que há poucas semanas reclamava que o governo deveria aumentar a oferta de crédito, uma fórmula que deu certo em seu governo, mas hoje dá sinais de que está bem gasta.