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A reação dos principais bancos centrais ao pior momento da Grécia

À beira do calote, Grécia agora enfrenta o risco real de sair da zona do euro. Fed e BCE devem ajustar suas estratégias para o momento de maior volatilidade

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danielamilanese

29 Junho 2015 | 19h06

A Grécia chega, de fato, ao seu momento mais dramático dentro da crise que já dura tantos anos. A situação agora é mais grave porque o país está, pela primeira vez, diante da possibilidade concreta de sair da zona do euro.

Antes, essa chance cabia apenas no campo da especulação. Mesmo quando deu o maior calote da história, em março de 2012, a Grécia estava assegurada dentro do bloco em razão da disposição política até então existente na Europa. Também havia a percepção de que uma saída representaria o caos para o país e sua população e provocaria uma onda certeira de contágio sobre outros membros ainda frágeis do euro.

A disposição política acabou desgastada por anos de embates entre a chamada troica – formada pela União Europeia, FMI e Banco Central Europeu – e os governos que passaram pela Grécia. E definhou a partir da chegada do partido de esquerda Syriza ao poder no início de 2015, que representou a insatisfação da população com as medidas de austeridade impostas pelos credores.

A sensação de que uma capitulação dentro da comunidade monetária seria agora mais digerível pelos mercados permeia a avaliação de diversos profissionais. Mas, em eventos desse tipo, é sempre difícil calcular onde despontaria uma fragilidade inesperada. E o risco de turbulência mais forte pode estar sendo subestimado.

Um fator importante para conter os problemas daqui para frente será a estratégia de atuação dos principais bancos centrais. O agravamento da crise na Grécia pode muito bem justificar um ritmo mais lento para a normalização da política do Federal Reserve. A perspectiva de início do processo de alta de juros vem sendo adiada constantemente. Será que vem mesmo em 2015?

A tão esperada reunião de junho chegou e passou sem que o BC dos EUA estivesse preparado para começar a apertar a política monetária. Como disse a presidente do Fed, Janet Yellen, as condições para uma alta de juros ainda não foram atingidas. Leia-se: o mercado de trabalho precisa melhorar, a inflação está aquém da meta e a valorização recente do dólar contribui desfavoravelmente.

“A crescentemente probabilidade de Grexit deixará o Fed mais cauteloso sobre o início do aperto monetário”, avalia Lee Hardman, estrategista do Bank of Tokyo-Mitsubishi, em relatório a clientes.

Ao mesmo tempo, o BCE deve ser levado a agir. Está mais do que provada a atitude proativa do presidente Mario Draghi, dentro dos padrões europeus, é claro. Afinal, foi ele quem rompeu o tabu e passou a imprimir dinheiro como fez o Fed, algo até então impensável na região.

Diversos analistas no exterior já levantam a possibilidade de que o BCE irá reforçar seu programa de compra de ativos à medida que a instabilidade crescer no bloco, reforçando a estratégia de afrouxamento quantitativo.

O JP Morgan, inclusive, vai além. O economista Greg Fuzesi acredita que o BCE poderá até mesmo partir para um plano anticontágio, se necessário, com intervenções específicas no mercado de títulos de dívida – uma área que, aliás, vive um período de liquidez minguada. “O BCE pode adotar o compromisso do ‘tudo que for necessário’ para intervir no mercado de um país se os retornos de seus títulos estiverem acima de nível justificável pelos fundamentos domésticos”, aponta o especialista.

O BCE manteve a linha emergencial de liquidez (ELA, na sigla em inglês) aos bancos gregos, embora não tenha aumentado o seu volume. Uma indagação atual, entre tantas, é sobre como ficará esse mecanismo a partir do calote grego amanhã, dado como certo.

Neste 30 de junho, vence o prazo para a Grécia pagar dívida de 1,6 bilhão de euros com o FMI. O que acontecerá a partir daí é incerto. Muitas outras dúvidas permanecem no ar no atual cenário de bastante instabilidade, que trouxe o fechamento dos bancos gregos até a próxima semana e controles de capital para evitar fuga em massa.

O primeiro-ministro Alexis Tsipras convocou, para depois do vencimento do prazo para acordo, um plebiscito sobre proposta apresentada pelos credores. Caso a população decida rejeitar o plano de austeridade, votando “não” como pede o líder grego, a saída do euro parece ser mesmo a consequência. Mas, se o “sim” vencer, é difícil imaginar que o Syriza possa continuar conduzindo o país. Nada impede, entretanto, que o governo ainda tenha de votar uma moção de confiança no parlamento nesse meio tempo, antecipando a berlinda.

Com tanta indefinição, só é possível imaginar que a volatilidade deve seguir presente nos mercados globais.

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