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China tem potencial para segurar Fed e agravar tempestade no Brasil

Seria mais fácil lidar com um processo escalonado, lento e bem comunicado de aperto monetário nos EUA, como todos recomendam a Janet Yellen, do que ter de encarar uma crise de maiores proporções na China

danielamilanese

16 Setembro 2015 | 12h30

Os mercados globais chegam à véspera da aguardada reunião do Federal Reserve despreparados para uma eventual alta nos juros. Esse, por si só, já é um motivo razoável para que as taxas sejam mantidas no chão por, pelo menos, mais um mês. Se o banco central dos Estados Unidos estivesse disposto a começar a colocar agora um fim na política ultra acomodatícia que prevaleceu nos últimos anos, Janet Yellen já deveria ter deixado isso bem mais claro. Na prática, a situação delicada na China tem potencial para adiar o processo – o que pode significar um problema ainda maior para o Brasil mais à frente.

Em 2004, quando o Fed subiu os juros pela última vez há mais de dez anos, os mercados precificavam 90% de chance um mês antes da decisão. E atualmente os contratos futuros dos fed funds indicam probabilidade de elevação em setembro de apenas 25%.

Um eventual movimento na reunião desta quinta-feira (17/9) representará susto grande. E pegaria o Brasil no pior momento possível, logo após a perda do grau de investimento pela S&P, em meio à crise política e às dúvidas sobre a capacidade do governo de executar o anunciado pacote fiscal. Seria a tempestade mais do que perfeita.

É verdade que as moedas emergentes já sofreram desvalorização expressiva neste ano, como reflexo do mergulho das commodities e do processo de antecipação quanto aos rumos do Fed. Mas países como o Brasil e a Turquia, envolvidos em problemas políticos, ainda podem sentir mais o início do processo de aperto monetário nos EUA, avalia Chris Turner, estrategista-chefe de câmbio do ING. “Vemos risco do câmbio ir a R$ 4,20”, afirmou a esta coluna. “Pelo menos vocês têm uma moeda flexível para absorver choques. É melhor do que administrar uma paridade com o dólar como a Ásia na década de 1990, o que levou a um default soberano.”

Apesar da melhora contínua do mercado de trabalho e do recuo no desemprego nos EUA, o Fed tem apontado a inflação baixa como fator de cautela. E os índices de preços estão esquálidos por lá em razão da queda no preço das commodities, provocada também pelo esfriamento da economia chinesa, além da valorização do dólar.

” O medo do Fed é a China desmoronar”, diz Wilber Colmerauer, sócio da consultoria EM Funding.

O peso da China sobre a atividade global é motivo de preocupação não apenas do Fed. O presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, deixou clara a apreensão com o comportamento dos emergentes no último encontro de política monetária, que sinalizou a possibilidade de ampliação do programa de afrouxamento quantitativo no bloco.

Ao falar de emergentes, as autoridades se referem automaticamente à China, pois é a potência asiática que tem realmente tamanho e peso para estremecer as finanças globais. As turbulências recentes no mercado de ações, com estouro de bolha, e a flexibilização da política cambial ecoaram por todo o mundo das finanças, num movimento que ainda não se esgotou e segue fonte de receios relevantes.

Ao permitir que o yuan reflita melhor o comportamento de mercado, o PBOC provocou uma desvalorização barulhenta. E teve de queimar reservas para administrar o fluxo da saída de capital da China, em meio às incertezas econômicas, e impedir queda ainda maior da moeda. Embora tenha acumulado trilhões de dólares, o BC chinês perdeu cerca de U$ 100 bilhões em agosto, um montante considerável.

Para Turner, do ING, a alta dos juros nos EUA e o avanço do dólar devem provocar mais desvalorização do yuan, o que levará o PBOC a novas atuações para segurar a moeda.

O adiamento do início do aperto pelo Fed pode, de fato, representar alívio de curto prazo para o Brasil, tendo em vista o ambiente tenso internamente. Mas, mesmo assim, as razões para a demora são preocupantes.

Seria mais fácil lidar com um processo escalonado, lento e bem comunicado de aperto monetário nos EUA, como todos recomendam a Yellen, do que ter de encarar uma crise de maiores proporções na China. Essa, sim, terá poder não só de tempestade, mas de tsunami.

Para a reunião desta quinta-feira, ainda será preciso calibrar os sinais emitidos no comunicado do Fomc, na divulgação das projeções, especialmente para as taxas de juros – os dots -, e na entrevista coletiva da presidente do Fed.

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