Novo presidente causa desconforto no conselho da Petrobrás
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Novo presidente causa desconforto no conselho da Petrobrás

O nome de Murilo Ferreira, presidente da Vale e indicado para acumular a presidência do conselho da estatal no lugar de Guido Mantega, gera incômodo entre alguns membros

danielamilanese

01 Abril 2015 | 12h01

Murilo Ferreira: substituto de Guido Mantega no Conselho da Petrobrás (Foto: Estadão)

Murilo Ferreira: substituto de Guido Mantega no Conselho da Petrobrás (Foto: Estadão)

As mudanças na Petrobrás foram insuficientes para resolver o desconforto existente dentro do próprio conselho de administração da empresa. Ainda existem dúvidas sobre a eficácia da composição do novo comando da estatal, em meio a tantos problemas enfrentados. Desta vez, o nome de Murilo Ferreira, indicado para acumular a presidência do conselho da estatal no lugar de Guido Mantega, contribui para o incômodo.

A Petrobrás corre contra o tempo para finalizar e publicar o balanço auditado de 2014, ponto fundamental para começar a resgatar sua credibilidade e impedir o vencimento antecipado de suas dívidas. A tarefa é liderada por Aldemir Bendine, que substituiu Graça Foster na presidência da empresa, em fevereiro.

A nomeação de Bendine causou reação negativa nos mercados, por sua forte ligação com o governo federal e atuação como presidente do Banco do Brasil. Investidores gostariam de um nome “a la Levy” para executar uma faxina e reformular a estratégia da empresa, em meio aos problemas financeiros e às denúncias da Operação Lava Jato.

Sem esse perfil, Bendine recebeu voto contrário dos três conselheiros independentes da estatal: Mauro Cunha e José Guimarães Monforte, ligados a acionistas minoritários, e Silvio Sinedino, indicado dos funcionários.

Na ocasião, conselheiros chegaram à beira da renúncia, em função de todo o desgaste provocado pela crise na companhia. No caso de Mauro Cunha, o fôlego durou menos de dois meses. Agora, o também presidente da Associação de Investidores no Mercado de Capitais (Amec) evidencia publicamente seu descontentamento ao decidir deixar a empresa, depois de dois anos no cargo.

“Tendo em vista minha frustração pessoal com a incapacidade do acionista controlador em agir com o devido grau de urgência para a reversão dos inúmeros problemas que trouxeram a Petrobrás à sua atual situação – o que ficou ainda mais evidente com as propostas à assembleia geral ordinária (AGO) de 2015 – informo que não pretendo lançar meu nome como candidato para um novo mandato”, afirmou, em comunicado enviado aos acionistas da Petrobras. Por exigência da Lei das SA, ele ainda participará da assembleia para prestar contas sobre seu trabalho na estatal.

As poucas palavras de Cunha embutem a falta de perspectiva sobre mudanças mais eficazes no comando da empresa. Na última reunião do conselho, realizada na semana passada, existia a expectativa de que a tão aguardada metodologia para elaboração do balanço seria analisada, até porque o diretor de Finanças da Petrobrás, Ivan Monteiro, havia se reunido informalmente com alguns conselheiros dias antes, para fazer esclarecimentos sobre as demonstrações financeiras. Entretanto, nada foi apresentado.

Ficou a avaliação de que a situação da companhia não passará por uma grande transformação, embora o novo comando ainda não tenha tido a oportunidade de passar a atuar de forma completa.

Murilo Ferreira, executivo bastante conceituado no mercado, deve ter seu nome aprovado na assembleia marcada para 29 de abril. Mas antes disso, nos bastidores, já se questiona sua capacidade de acumular a presidência do conselho da Petrobrás juntamente com a presidência da Vale, onde também permanecerá.

“Uma empresa em crise precisa de alguém disponível para ser um presidente de conselho, para comandar um gabinete de crise”, afirmou a esta coluna uma fonte que acompanha o tema de perto.

Mergulhada nas denúncias de corrupção da Lava Jato, a Petrobrás vive o momento mais difícil de sua história. Ao mesmo tempo, a Vale, liderada por Ferreira, também atravessa um momento desafiador diante do final do boom das commodities. Assim como o petróleo, o preço do minério de ferro despenca no mercado. Em um ano, as ações PNA da Vale acumulam queda superior a 40%, movimento mais expressivo do que a perda dos papéis PN da Petrobrás no mesmo período, de quase 35% – o Ibovespa consegue registrar alta de 1,6% na comparação.

Eventuais conflitos de interesses passam a ser observados no acúmulo das funções. Mas, sabe-se que do ponto de visto técnico não há impedimento para que um executivo assuma dois cargos do tipo. Basta lembrar a experiência recente de Abilio Diniz no comando do Pão de Açúcar e na presidência do conselho da BRF.

Há outra questão que, neste momento, talvez pese ainda mais para os minoritários: o fato de Ferreira ter sido escalado diretamente pelo Planalto para a missão. Afinal, a ingerência do governo é apontada como um dos principais causadores dos problemas financeiros da Petrobrás.