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Dívida das empresas coloca temor de crise financeira no radar

Endividamento das companhias é pressionado por dólar e juros e levanta preocupação sobre o efeito de eventuais calotes no Brasil e em outros emergentes

danielamilanese

02 Outubro 2015 | 16h23

Já que os problemas políticos e econômicos seguem a pleno vapor no Brasil, um novo risco passou a ser observado com cuidado nos mercados: a possibilidade de que o alto endividamento das empresas evolua para uma crise financeira.

Embora o sistema nacional seja considerado sólido, o temor começou a entrar no radar de profissionais aqui e no exterior. “Temos de piorar ainda para chegarmos nisso, mas existe essa preocupação”, afirmou estrategista de ações de um grande banco estrangeiro. “O assunto do momento é saber se as empresas conseguem se sustentar com o atual nível do câmbio e dos juros ou se haverá calotes com efeitos sobre bancos e fornecedores.”

As dívidas corporativas elevadas em países emergentes vêm chamando, inclusive, a atenção de organismos internacionais. O ambiente de forte liquidez e juros perto de zero criado pelos grandes bancos centrais nos últimos anos fez com que as companhias contraíssem significativos financiamentos em dólar. Agora, como a divisa norte-americana passa por forte valorização, o problema está instalado.

“Os mercados financeiros estão preocupados sobre a possibilidade de insolvência de empresas e bancos nos emergentes”, afirmou Charles Robertson, economista-chefe global do Renaissance Capital, em Londres. Aliás, ele acredita que o Banco Central do Brasil só deveria usar as reservas internacionais para conter o câmbio se houver riscos de default de dívidas em dólar (ou se a inflação sair de controle).


Na quinta-feira (1), o Banco Central divulgou Relatório de Estabilidade Financeira (REF) abordando a questão das dívidas em moeda estrangeira e dos processos de recuperação judicial de companhias envolvidas na Lava Jato, outra dificuldade enfrentada no momento. No caso da operação da Polícia Federal, se numa situação extrema as empresas citadas quebrassem, o sistema financeiro necessitaria de R$ 3,4 bilhões para se reenquadrar.

O valor pode ser considerado baixo, mas o cálculo não envolve a possibilidade de default da Petrobras, como explicou o diretor de Fiscalização do BC, Anthero Meirelles, em entrevista coletiva.

E é a estatal de petróleo que tem maior potencial para criar problemas sistêmicos. A dívida da companhia, aliás, explodiu com a desvalorização cambial registrada neste ano e deve ter atingido R$ 500 bilhões no terceiro trimestre. Tanto que a Petrobras já buscou renegociar endividamento de US$ 1 bilhão com o Banco do Brasil, agora transformado em obrigação em moeda local, de R$ 4,07 bilhões.

Outras empresas, como CSN e Log-In, também partiram para a renegociação de dívidas.

Na avaliação de Chris Turner, estrategista-chefe de câmbio do ING em Londres, a perda do grau de investimento do Brasil pela S&P abriu um novo e significativo capítulo na crise dos emergentes, que já sofriam com a desaceleração econômica e o mergulho nos preços das commodities. O rebaixamento brasileiro, acredita, foi a passagem da fraqueza no campo macroeconômico para a área de crédito soberano. E, desde aquele 9 de setembro, o foco vem mudando para os mercados de dívida.

Recentemente, Turner produziu um relatório com o seguinte título: “Emergentes: E se a crise cambial evoluir para uma crise bancária?”

Ele analisa dados divulgados pelo Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês) no mês passado, com indicadores que poderiam antecipar a possibilidade de problemas nessa área – o estudo pode ser visto no endereço

Documento

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A conclusão do BIS é que China, Brasil e Turquia aparecem como os mais suscetíveis a uma crise bancária. Para o ING, os bancos privados nacionais têm sido cautelosos e não estão dependentes do financiamento externo, além de possuírem bom nível de provisões. “Se ocorresse um problema no Brasil, provavelmente viria de um dos bancos estatais precisando de ajuda do governo, complicando a já difícil perspectiva fiscal”, diz o relatório do ING.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) também passou a dar alertas sobre a situação do endividamento das empresas nos emergentes. Nesta semana, o fundo divulgou estudo mostrando que a dívida corporativa de empresas não financeiras dos principais países em desenvolvimento saltou de US$ 4 trilhões em 2003 para US$ 18 trilhões em 2014 e a parcela em moeda estrangeira cresceu de forma expressiva. O Brasil foi a quarta economia emergente em que os passivos corporativos mais cresceram desde 2008, atrás apenas da China, Turquia e Chile.

A análise com lupa do nível e composição das dívidas das companhias passou a ser tarefa obrigatória.