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Estrangeiro aproveita câmbio para entrada pontual na Bovespa

Índice em dólar bateu, na semana passada, cotação mais baixa desde março de 2009, momento considerado como fundo da crise externa para os mercados

danielamilanese

19 Março 2015 | 15h09

Não é de hoje que os preços das ações brasileiras são considerados baixos. A Bovespa passa por um período desanimador, que leva inclusive algumas empresas a abandonarem o mercado de capitais.

O País passou a ser preterido por investidores estrangeiros em razão da deterioração da economia, o que inclui problemas fiscais, fraqueza da atividade, persistência da inflação e risco de perda do grau de investimento. Do final do ano para cá, o cenário piorou ainda mais e os escândalos de corrupção envolvendo a Petrobras trouxeram uma crise política.

Mesmo em meio a tudo isso, a Bovespa começou a ver alguma entrada de recursos externos nos últimos dias. Como explicar esse movimento repentino na atual situação?

“É o câmbio”, resume Vital Menezes, CEO da JP Morgan Asset Management, em conversa com esta coluna. Afinal, a moeda brasileira sofreu uma desvalorização rápida e relevante, o que fez o dólar se aproximar de R$ 3,30.


A trajetória do câmbio criou um ponto de entrada ao jogar as cotações para patamares bem mais baixos. Levantamento da Economática mostra que, em dólar, o Ibovespa bateu 15.062 pontos no dia 13 de março, sexta-feira passada. É o menor nível desde março de 2009, período considerado como o ponto da virada do mercado brasileiro após o estresse causado pelo colapso do Lehman Brothers meses antes.

Desde o piso registrado na semana passada, o índice avançou cerca de mil pontos, um ganho de quase 7%, na moeda norte-americana. A onda atingiu inclusive aquela que representa hoje o grande temor para o mercado brasileiro: a Petrobras. As ações da estatal retomaram o patamar de R$ 9,00.

Apesar dos diversos relatos de que a entrada de capital estrangeiro conduziu os ganhos da Bovespa nos últimos dias, estrategistas consultados por esta coluna avaliam que o movimento é de curto prazo, com viés mais especulativo.

“Como investidor de longo prazo, eu adicionaria à carteira ações de empresas estáveis que estivessem em queda, mas não compraria no rali”, afirma Kumar Pandit, gestor para o Brasil da Somerset Capital Management. “Há muita incerteza sobre a Petrobras, a Lava Jato, Renan Calheiros diante das medidas fiscais, racionamento e, claro, a popularidade do governo.”

Para Adrian Landgrebe, gestor da Sagil Capital, em Londres, o Brasil parece barato em dólares e possivelmente investidores veem uma oportunidade. Duas operações anunciadas recentemente podem acabar reforçando essa percepção: a proposta de fechamento de capital da Souza Cruz e a oferta pelas ações da BR Properties. Seus controladores aproveitam os preços atuais para comprar os papéis. “Mas eu não vi uma mudança da avaliação sobre o fundamento do Brasil”, diz Landgrebe.

“O câmbio é um atrativo, mas não é possível se convencer de que este é um movimento permanente”, afirma Wilber Colmerauer, sócio da consultoria EM Funding. “É um dinheiro especulativo.”

Os grandes investidores de longo prazo estão afastados do Brasil. Além das dificuldades econômicas e políticas, existe a expectativa pelo balanço da Petrobras. A estatal tem até o final de maio para conseguir calcular as perdas decorrentes das investigações da Lava Jato e publicar demonstrações financeiras auditadas pela PwC.

Esse é o ponto que mais preocupa aqueles voltados para o mercado de ações. Sem a devida auditoria, credores podem disparar um processo de antecipação de vencimentos de dívidas, com sérias consequências e potencial risco sistêmico. Somente a partir da publicação do balanço será possível avaliar o impacto sobre o patrimônio da companhia. “Em toda a reunião com investidores que eu participo, a primeira pergunta é sobre a Petrobras”, afirma um profissional no exterior.

Se o atual fluxo internacional para o mercado de ações é pontual, o que teria de ocorrer para uma virada sobre a percepção do Brasil? Depois de divulgados os números da Petrobras, a resposta ouvida é sempre uma só: o governo precisa conseguir efetivamente mostrar resultados críveis das novas medidas econômicas, especialmente no campo fiscal.