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O efeito da potência máxima do BCE sobre a Selic e o real

Enquanto o Brasil sobe os juros praticamente sozinho, Mario Draghi amplifica o movimento de alívio monetário global e cria novo fluxo de investimentos para os emergentes

danielamilanese

23 Janeiro 2015 | 12h04

Mais uma vez, Mario Draghi não decepcionou quem esperava uma postura mais agressiva do Banco Central Europeu no combate à crise. Desde que assumiu o cargo, em 2011, o presidente do BCE vem entregando medidas até então impensáveis para a zona do euro. Agora, ao anunciar um programa de compra de ativos de 1,1 trilhão de euros, Draghi dá um passo histórico e quebra um imenso tabu na região.

O Brasil, assim como outros emergentes, sentirá os efeitos da postura do BCE. A questão é saber se o BC comandado por Alexandre Tombini conseguirá manter-se isolado do atual movimento de alívio monetário instalado ao redor do mundo. Ao elevar a Selic em 0,50 ponto porcentual nesta semana, para 12,25%, o Copom divulgou comunicado enxuto e deixou a porta aberta para as possibilidades.

De um lado, está a inflação pressionada neste início de ano pelo fim do represamento dos preços administrados. De outro, o ajuste fiscal numa economia enfraquecida.

Enquanto isso, o mergulho dos preços do petróleo e o recuo de outras commodities fazem diversos bancos centrais partirem para estratégia de alívio monetário, caso do Peru, Índia e Turquia, emergentes que são referência relevante para os investidores. E o processo de alta de juros nos Estados Unidos, antes dado como certo para este primeiro semestre, já se transformou em dúvida.


A bazuca do BCE amplifica a onda global de alívio monetário. “Com certeza, o BC do Brasil também vai olhar para fora. O comunicado de ontem deixou espaço para desacelerar a alta dos juros”, afirmou Ilan Solot, estrategista da Brown Brothers Harriman, em Londres.

Ao colocar sua máquina de imprimir dinheiro em potência máxima, o BCE também acaba reforçando a perspectiva de fluxo positivo para o País ao disparar o apetite por risco.

O fluxo de dólares começou a voltar ao Brasil, pois os investidores ampliaram a confiança na nova equipe econômica do segundo mandato de Dilma Rousseff. As medidas de aperto fiscal anunciadas recentemente por Joaquim Levy transmitiram sinal de que o novo ministro da Fazenda encontra espaço para efetivamente colocar em prática os ajustes que julga necessários.

O retorno dos investimentos de curto prazo fica estimulado pelo diferencial de juros atrativo, diante da divergência de política monetária. Afinal, o Brasil é praticamente o único país do mundo que sobe juros neste momento. O outro é a Rússia, que se encontra em situação bem diferente, em meio às sanções impostas pelo conflito com a Ucrânia e crise cambial.

As moedas emergentes ganharam valor após a iniciativa de mais estímulo na Europa. O real, a lira da Turquia, o rande da África do Sul e até mesmo o rublo russo registraram  valorização em torno de 3% em relação ao euro no dia do anúncio do BCE.

“Foi um boom para as moedas emergentes”, avalia Kash Kamal, analista da corretora Sucden. “Os fortes ganhos registrados pelo real, rande e lira, assim como o rublo, agem como um precursor otimista de mais fluxo para os mercados de ações emergentes em 2015.”

A continuidade da disposição dos investidores internacionais, entretanto, depende do resultado das eleições gerais na Grécia, marcadas para este domingo. Esse é considerado o próximo evento capaz de mexer com a percepção das finanças. O Syriza, partido de extrema esquerda, segue à frente nas pesquisas de intenção de voto. Sua postura contra a Europa e as medidas de austeridade impostas pelo pacote de resgate ao país, anos atrás, desperta recordações amargas dos momentos mais tensos vividos pela zona do euro, quando a Grécia deu o maior calote da história, em 2012. A região ficou perto do colapso e tenta se restabelecer até hoje, como fica evidente com a iniciativa trilionária do BCE.