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Saída da zona do euro passa a ser cenário mais provável para a Grécia

Somente acordo político de última hora pode evitar o rompimento da união monetária. Há risco de bancos ficarem sem recursos e país ter de emitir suas próprias notas

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danielamilanese

06 Julho 2015 | 11h49

O resultado histórico do plebiscito na Grécia foi bastante claro: a disposição da população para mais austeridade chegou ao fim. Ao contrário de uma sociedade dividida, como indicavam as pesquisas, a vitória folgada do “não”, com mais de 60% dos votos, revela que foi bem sucedida a campanha do primeiro-ministro, Alexis Tsipras. O líder do partido de esquerda Syriza não tem, entretanto, dias fáceis pela frente.

A não ser que um acordo de última hora seja costurado, analistas internacionais apontam que a Grécia passou efetivamente a trilhar seu caminho de saída da zona do euro. Para impedir tal destino, um dos dois lados – o governo grego ou as lideranças da região – teria de ceder significativamente.

Tsipras agora tem o respaldo de uma votação inconteste. Neste terça-feira, ele voltará a Bruxelas para tentar um acerto com condições melhores ao país. A renúncia do ministro das Finanças da Grécia, Yanis Varoufakis, parece ter o objetivo de facilitar conversas. Entretanto, a União Europeia, o FMI e o Banco Central Europeu já tiveram diversas oportunidades de voltar atrás e aliviar os termos de austeridade exigidos, mas não deram sinal de tal intenção.

Logo após o resultado do plebiscito, ontem à noite, alguns bancos passaram a apontar que cresceu a possibilidade de a Grécia ter de abandonar a moeda comum. Essa chance chega a 70% na visão, por exemplo, do JPMorgan e do BNP Paribas. Está em 50% na visão do Rabobank.

O caminho até a saída da união monetária é incerto. Analistas avaliam, entretanto, que a insolvência dos bancos deve ser, na prática, o catalisador. As instituições estão ficando sem recursos e, em tese, teriam de reabrir na terça-feira. Por isso, uma decisão fundamental deve vir a partir de mecanismo do BCE. A autoridade monetária precisa definir se manterá a linha emergencial de liquidez aos bancos gregos. Sem esse oxigênio, não resistirão. Ao mesmo tempo, o BCE não pode seguir aceitando garantias de instituições insolventes.

Na verdade, é possível que uma definição política seja necessária para esse fator mais técnico. Como lembra o Financial Times, o presidente do BCE, Mario Draghi, considerou que, por não ser eleito, não tinha mandato suficiente para decidir sobre algo do tipo em 2012, no pico anterior da crise grega – a situação se resolveu de outra forma na época, pois o governo acabou aceitando o programa de austeridade. Líderes europeus já marcaram reuniões entre hoje e amanhã sobre a Grécia.

Na prática, o trânsito com o BCE tende a ditar o enredo daqui para frente. Se os bancos ficarem sem recursos, o país precisará emitir sua própria moeda – inicialmente, notas a pagar, os chamados IOUs (da sigla de I owe you, em inglês). Nesse caso, não se sabe por quanto tempo conseguiria conviver com o euro.

Além disso, a próxima data considerada crucial para a Grécia é o dia 20 de julho, exatamente porque vence dívida de 3,5 bilhões de euros com o BCE.

Uma solução bem menos traumática poderia vir somente com um surto de disposição política no bloco, para permitir uma ajuda financeira à Grécia. Isso, entretanto, parece improvável no momento.

“Depois de um forte ‘não’, agora há uma corrida entre duas forças: pressão política por um acordo e o impacto de um setor bancário disfuncional”, avalia o JPMorgan, em relatório a clientes. “O ‘não’ significa, mais provavelmente, a saída da união monetária”, acredita o Barclays.

A tendência é de mais instabilidade à frente, com os consequentes efeitos sobre os mercados financeiros. Para o BNP Paribas, a situação tende a deixar o Fed mais preocupado sobre o impacto de uma possível alta dos juros nos Estados Unidos. “O Fed vai provavelmente dizer ‘não’ para setembro”, aponta o banco francês, referindo-se à perspectiva de que o início do processo de normalização monetária tende a ser adiado novamente.

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