Amazônia tem espaço para criar 240 milhões de cabeças de gado sem desmatamento

Amazônia tem espaço para criar 240 milhões de cabeças de gado sem desmatamento

Amcham Brasil

03 Novembro 2016 | 11h22

Usando técnicas de criação sustentável e sem aumentar a área de pastagem, o rebanho bovino da Amazônia chegaria a 240 milhões de cabeças, de acordo com Francisco Beduschi, presidente do Grupo de Trabalho da Pecuária Sustentável (GTPS). “Das 80 milhões de cabeças de gado criado no bioma amazônico, é possível aumentar o rebanho em até três vezes sem fazer desmatamento”, segundo o dirigente. A produção de carne sustentável vem ganhando a adesão de empresas escala em frigoríficos como a Minerva, apoiados pela adesão de redes como o McDonald’s, que já inclui o produto no cardápio, e grandes supermercadistas.

Em setembro, a rede de fast food McDonald’s comprou 250 toneladas de carne sustentável e tem como meta aumentar gradualmente a participação dessa proteína na produção de sanduíches. “O Walmart e o Carrefour já comercializam a carne, e o Pão de Açúcar estuda formas de colocar o produto em suas lojas”, acrescenta Beduschi.

O bioma amazônico é formado pelos estados do Norte, Mato Grosso e parte do Maranhão. Segundo Beduschi, no Mato Grosso se concentra a maior parte do rebanho bovino nacional, cerca de 29 milhões de cabeças que representam 16% do total de 180 milhões. Como a taxa de ocupação de gado no bioma é de 1,4 cabeça por hectare, o potencial de criação é de três vezes mais aproveitando os espaços abertos pela pecuária.

O GTPS é uma associação formada por grandes representantes da cadeia pecuária bovina, como produtores, indústrias, varejistas e fornecedores. Em novembro, o grupo vai participar da próxima cúpula do clima (COP 22) no Marrocos para reforçar o papel da pecuária sustentável como fonte de apoio ao cumprimento da meta de redução de gases poluentes. O grupo tem estudos recentes que mostram que é possível reduzir de 70% a 90% de emissões por quilo de carne produzida aplicando práticas sustentáveis. “Isso diminuiria as emissões de 120 quilos de CO₂ para cerca de 40 quilos”, pontua Beduschi.

O frigorífico Minerva Foods aplica políticas de pecuária sustentável desde 2010, quando começou a participar do Compromisso Público da Pecuária – acordo que envolve princípios de respeito socioambiental na produção. Algumas das práticas são a compra de carne de áreas não desmatadas e o incentivo ao uso de tecnologia na produção. Critérios de responsabilidade socioambiental são determinantes na compra de gado, o que faz com que os pecuaristas cadastrados na companhia passem por verificação a cada negociação, segundo a empresa.

Uma plataforma de monitoramento usada na cadeia de suprimentos permitiu o monitoramento de 1,9 milhão de cabeças de gado do frigorífico em todo o país, e mais de 5,7 milhões de hectares onde o rebanho é criado na Amazônia em 2015. Além de monitorar a conversão de uso do solo, a Minerva usa a tecnologia para auxiliar os programas da empresa que fomentam o aumento da taxa de ocupação do gado, promovendo uma cadeia de valor mais eficiente.

As informações geradas permitiram o levantamento da quantidade e tipo de gado de cada região, direcionando a compra de acordo com o potencial de desenvolvimento do rebanho. Diariamente, a Minerva compra mais de seis mil animais monitorados. “Isso representa economia capital, uma vez que a matéria-prima equivale de 75% a 85% dos custos do produto final. Ademais, os custos de logística são mitigados pelo melhor gerenciamento da rota a ser utilizada”, de acordo com Taciano Custodio, gerente executivo de sustentabilidade da Minerva Foods.

A Minerva é uma das empresas inscritas no Prêmio ECO de 2016. Outra empresa que concorre ao ECO é a Pecuária da Amazônia (Pecsa), que gerencia projetos agropecuários sustentáveis. Para Laurent Micol, diretor de governança e investimentos da Pecsa, a tendência é que a criação de gado seja feita em espaços já abertos na Amazônia para evitar impactos ambientais maiores.

Aplicando tecnologias de captação de água e redistribuição de pastagens na Amazônia, o gado se movimenta menos e engorda mais rápido comendo o capim abundante da região, segundo Micol. “O gado cresce com ótima qualidade e ganha peso ideal para abate em dois anos, com carne mais macia. Usando técnicas tradicionais, ele demora de quatro a cincos anos e a carne fica mais dura.”

Na pecuária convencional, o gado anda até encontrar água e gera mais impacto ambiental, acrescenta Micol. “Isso gera efeitos no solo, que é pisoteado e expõe os nutrientes, diminuindo o seu potencial agrícola. Além disso, ao beber a água dos rios, ele come a vegetação ciliar do entorno e produz excrementos que sujam o recurso”, compara.

A fabricante de produtos agropecuários Korin cria bovinos de forma sustentável na região do Pantanal. “Produzimos a carne de forma extensiva. Não confinamos o boi”, disse Reginaldo Morikawa, diretor superintende da Korin. De acordo com o executivo, a carne produzida no Pantanal é feita sem agredir o meio ambiente. “No Pantanal, o boi é considerado um bombeiro da região. Porque ele come o capim em excesso que cresce depois das cheias e evita queimadas na época de seca”, detalha.

Outra vantagem da criação no Pantanal apontada pela Korin é que a sazonalidade entre seca e cheia permite a alimentação do gado e adubação de terras, o que tira qualquer necessidade de adicionar adubos químicos e orgânicos ao solo. Em 2013 e 2012, a Korin venceu o Prêmio ECO com projetos de agropecuária sustentável.

Para Beduschi, a pecuária feita de modo sustentável é a melhor forma de se desenvolver na Amazônia. “Essa atividade já se instalou na região. O que queremos é que ela se desenvolva de forma sustentável. E fazendo a intensificação sustentável da produção, podemos liberar terras para a expansão agrícola.”

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