Clima drástico, eventos extremos, furacões mais intensos: consequências do aquecimento global custarão caro

Clima drástico, eventos extremos, furacões mais intensos: consequências do aquecimento global custarão caro

Amcham Brasil

12 Setembro 2017 | 16h46

Há alguns anos, diversas organizações e entidades publicam relatórios e estudos sobre as dramáticas consequências do aquecimento global. Uma delas são os eventos extremos – com mais calor no planeta, há mais energia no ambiente. Com isso, o clima fica mais drástico: chuvas mais intensas ou ilhas de calor nos centros urbanos, por exemplo. Diversos estudos inclusive apontam que a intensidade de furacões e ciclones provavelmente aumentará nos próximos anos. Em um mês que três furacões – Irma, Harvey e Katia – deixaram milhares de desalojados e provocaram danos pelos países em que passaram, o debate no meio científico se reacendeu.

Furacões não são provocados pelo aumento de temperatura. No entanto, o aquecimento global, ao esquentar as águas dos oceanos e o ar atmosférico, podem ajudá-los a ganhar força mais rápido e tornarem-se mais destruidores. Foi o caso do Harvey: ao passar pelas águas do Golfo do México, que estavam quase dois graus mais quentes que o normal, se fortaleceu e chegou a categoria quatro antes de atingir o estado do Texas, nos Estados Unidos. Os resultados: 30 mil desabrigados e mais de 60 mortos.

Em julho deste ano, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou um relatório alertando sobre a relação entre as mudanças climáticas e saúde. O número de desastres naturais relacionados ao clima vem aumentando sistematicamente desde 1960, resultando na morte de cerca de 60 mil pessoas anualmente, principalmente em países em desenvolvimento ou subdesenvolvidos. O mesmo artigo lembra que, nos últimos 130 anos, a temperatura global subiu aproximadamente 0,85 Cº. A preocupação de boa parte da comunidade científica pode ser resumida em uma pergunta: o que acontecerá se a temperatura do planeta subir 1,5 Cº ou até 3 Cº, como apontam as projeções mais recentes?

Além dos eventos extremos, que já são preocupantes por si só, as mudanças climáticas trazem um impacto relevante na economia, como lembra Marcos Buckeridge, coordenador do Programa USP Cidades Globais do Instituto de Estudos Avançados (IEA). Durante sua participação na Virada Sustentável de São Paulo, o pesquisador trouxe dados da OECD sobre as consequências que a economia sofrerá caso a sociedade não consiga desenvolver soluções e adaptações que freiem o aquecimento.


“Se nós decidirmos agora evitar os efeitos das mudanças climáticas, o mundo teria que gastar cerca de 100 trilhões de dólares nesse momento. Isso é muito e levaria a um impacto de uma diminuição de cerca de 1% do PIB global por cerca de vinte anos. Mas, depois desse período, a economia voltaria a crescer, em uma situação melhor. Porém, se não fizermos essa preparação agora, teremos que gastar cerca de dez vezes mais no futuro para poder fazer as adaptações necessárias”, salienta.

As pressões para as empresas diminuírem suas emissões de carbono têm aumentado nos últimos anos, o que representa um avanço. No entanto, as soluções não devem ficar restritas à processos ou atividades econômicas específicas. Para cumprirmos as metas da COP 21, em que o Brasil se comprometeu a reduzir suas emissões em 37% até 2025 (ano base 2005), as soluções deve ir além da iniciativa privada.

Um exemplo foi a parceria da Dow com o Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos Rio 2016. Megaeventos trazem uma série de consequências ambientais com construções, gastos mais elevados com energia, fluxo de transporte de pessoas por carros, trens e aviões. Calcula-se que os jogos geraram emissões de gases do efeito estufa (GEE) equivalentes à emissão de toda a cidade do Rio de Janeiro por dois meses.

A Dow trouxe uma metodologia para calcular as principais fontes geradoras desses gases que já tinha sido aplicada nos Jogos de Inverno da Rússia, em 2014. O objetivo da empresa era mitigar 500 mil toneladas de carbono geradas pela construção de infraestrutura, iluminação, alimentação e transporte de voluntários e atletas. Adicionalmente, a outra meta seria mitigar 1,5 milhão de tonelada provocadas de forma “indireta”: transporte aéreo de espectadores e turistas, por exemplo. Esses projetos da Dow com seus clientes buscavam oferecer soluções que diminuíssem a pegada de carbono em diversas frentes. Foram oito iniciativas implementadas entre 2014 e 2016, não necessariamente dentro dos jogos ou no Rio de Janeiro.

Uma das principais foi a substituição de uso de combustíveis fósseis por geração de energia por biomassa (eucalipto e bagaço da cana-de-açúcar) em operações industriais da própria Dow. Apenas essa ação foi responsável por reduzir uma quantidade significativa de carbono na atmosfera: 200 mil toneladas deixaram de ser emitidas.

Outras frentes foram relacionadas a agricultura e construção. Um projeto com na região do Vale do Araguaia recuperou o solo antes degradado pela pastagem, possibilitando o sequestro de carbono e também a reutilização do solo para a atividade através de soluções de ponta em sementes e controle de ervas daninhas. Em construção civil, trabalhar com tecnologias de isolamento térmico reduziu drasticamente o uso de energia elétrica em comparação a sistemas convencionais.

“Uma das maneiras de diminuir emissões de carbono nas cidades é aumentar a eficiência energética e otimizar o processo construtivo. O desperdício, por exemplo, é uma das formas mais nocivas de emissão. Durante o processo construtivo, você gera carbono e no final desperdiça 30 ou 40% daquele material, o que pode ser evitado”, pontua Júlio Natalense, gerente de Tecnologia e Sustentabilidade para Operações Olímpicas da Dow Brasil.

Todos os projetos são ativos e auditados de maneira independente, a fim de certificar sua eficiência, e serão acompanhados pela Dow até 2026. O executivo destacou que a cooperação entre os diversos atores envolvidos nos Jogos foi o que garantiu o sucesso das ações e que agir de maneira conjunta ajudará o Brasil a cumprir os acordos assinados na COP 21. “Essa parte da cooperação, eu destacaria que foi importante [nos Jogos Olímpicos]. A gente não vai conseguir reduzir as emissões sozinhos. Temos que trabalhar toda a cadeia de valor e objetivos estratégicos para obter resultados significativos”, pontua. A iniciativa foi reconhecida e venceu o Prêmio Eco de Sustentabilidade da Amcham no ano passado.

Marcos Buckeridge lembra que são necessárias múltiplas ações, envolvendo planos da sociedade, da administração pública e da iniciativa privada para melhorar o quadro das mudanças climáticas: “Nas cidades, a quantidade de as oportunidades de novos negócios é absurda. Várias novas tecnologias estão começando a aparecer e há um interesse enorme nisso. A iniciativa privada vai ter uma série de oportunidades de se transformar, se tornar muito mais eficiente”.