Com rejeição de Donald Trump ao Acordo de Paris, empresas se unem para manter os compromissos da agenda climática

Com rejeição de Donald Trump ao Acordo de Paris, empresas se unem para manter os compromissos da agenda climática

Amcham Brasil

12 Junho 2017 | 09h18

O mês de junho começou com perspectivas desanimadoras em relação ao futuro do planeta. Em um momento em que as discussões sobre a insustentabilidade do atual modelo de produção e consumo ganha cada vez mais espaço e relevância, uma atitude inesperada surge como um obstáculo no meio do caminho. Isto, porque na última quinta-feira, dia 1, os Estados Unidos da América anunciou oficialmente a sua retirada do Acordo de Paris, que tenta deter os avanços do aquecimento global.

O protocolo foi assinado por 195 nações no ano passado com o objetivo reduzir a emissão de dióxido de carbono na atmosfera, um dos gases responsáveis pelo efeito estufa. Entre as metas acordadas pelo documento está o compromissos dos países em trabalhar para que o aquecimento global fique muito abaixo de 2°C, buscando limitá-lo a 1,5°C. Investimento de US$ 100 bilhões por ano pelas nações desenvolvidas para o combate às mudanças climáticas e à pobreza. Além disso, estabelece um calendário de balanço global das metas a cada 5 anos.

Cientistas de todo o mundo consideram estas atitudes essenciais para rever um quadro que já é considerado como o grande desafio da humanidade no século XXI. E, se nada for feito, as consequência sobre o clima serão ainda mais severas. Na verdade, a maior incidência de extremos climáticos já demonstra mudanças no clima do planeta. De acordo com o Emergency Events Database (EM-DAT), banco de dados mantido pelo governo belga, entre 1900 e 2015 ocorreram 21942 desastres no mundo. Neste mesmo período, 38 milhões de pessoas perderam suas vidas. Os danos econômicos foram de 2,9 trilhões de dólares. Tudo isso em função de eventos meteorológicos e hidrológicos.

A respeito das atitudes que devem ser tomadas, Ban Ki-moon, ex-secretário-geral da Organização das Nações Unidas, pronunciou as seguintes palavras durante a Conferência das Partes (COP22), no ano passado: “Não há um “plano B”, porque não há um planeta B”. O encontro, que aconteceu em Marrakech, no Marrocos, reafirmou os compromissos das nações em relação ao Acordo de Paris.

Empresas vão manter Acordo mesmo com a retirada dos EUA

Indignados com a decisão do Presidente Donald Trump, governadores, prefeituras e empresários americanos se comprometeram em adotar medidas para combater os avanços do efeito estufa, mesmo sem o apoio da Casa Branca. Uma pesquisa recente realizada pela Universidade de Yale e George Manson também aponta que 49% dos eleitores do republicano acreditam que o aquecimento global está acontecendo, contra 30% que dizem não acreditar no evento. Além disso, quando questionados sobre a participação da nação no Acordo de Paris, 47% dos entrevistados que votaram no presidente concordam que os EUA devem manter seus compromissos com o documento.

Entre as muitas empresas que se posicionaram positivamente em relação às metas determinadas pelo Acordo de Paris está a Cummins, multinacional de motores e geradores de energia. Adriano Rishi, diretor de engenharia da organização para América Latina, afirma que além do documento, a empresa também é apoiadora de muitas outras ações mundiais quando o assunto é mudança climática. Para ele, mitigar impactos e preservar o meio ambiente é um desafio grande para qualquer indústria, no entanto, são encarados de maneira muito positiva pela organização. “Como companhia, a gente permanece apoiando o acordo de paris não do ponto de vista político, mas, sim, porque é nosso comprometimento e nossa missão. Tudo que a gente faz é gerar um ambiente mais limpo e saudável. A decisão do Presidente Trump de sair do acordo de Paris não muda o curso das nossas ações, dos nossos negócios e das comunidades em que atuamos”.

A Cummins tem uma unidade de negócios focada no desenvolvimento e na produção de sistemas para a redução da emissão dos poluentes em motores – a Cummins Emission Solutions (CES). A integração entre o motor e essas novas tecnologias que compõem sistemas de pós-tratamento trazem uma economia que varia de 5% a 8% de combustível . “A CES é essencial para atingir baixas emissões, porque não conseguíamos reduzir mais as emissões dentro dos motores. Se considerarmos uma produção anual baixa de tratamento em 25 mil caminhões, anualmente estamos deixando de emitir 52 mil toneladas de CO2. E o que isso significa? Gostamos de fazer uma comparação de que seria necessário uma área de mil campos de futebol de eucaliptos para ser capaz de absorver todo esse gás”, compara Rishi. A iniciativa concorreu ao Prêmio Eco em 2013.

Para Rishi, as ações para melhorar o ambiente desafiam a indústria de uma maneira positiva, a favor do desenvolvimento tecnológico. “O que é bom para o ambiente também é bom para o negócio e para os clientes. Temos desenvolvido parcerias de sucesso com as partes interessadas como, por exemplo, o governo. Para que as regulamentações de redução de CO2 sejam cada vez mais claras e exigentes”, conta. A multinacional também trabalha com combustíveis alternativos, como o biodiesel e uma nova área de negócios que se dedicará a eletrificação.

Acordos setoriais pelo clima

A preocupação com a pegada ecológica das empresas, muitas vezes, levam as mesmas a se organizarem e apresentarem propostas de sustentabilidade setoriais. Foi o caso das companhias aéreas. Em acordo global proposto pela International Air Transport Association (IATA) em 2010, o setor assumiu o compromisso de atingir um crescimento neutro de carbono até 2020 – ou seja, qualquer emissão do gás deverá ser compensada. Já em longo prazo, até 2050, a ideia é cortar pela metade as emissões, em comparação aos níveis de 2005. Para se ter uma ideia dos impactos negativos em relação aos gases produzidos pelo setor e que contribuem para o aquecimento global só em 2015, voos comerciais produziram cerca de 781 milhões de toneladas de gás carbônico, segundo dados da Air Transport Action Group (ATAG) – montante que representa 12% do total de emissões dos meios de transporte.

A queima do querosene, principal combustível usado por aeronaves, é o que dá origem a diversos poluentes e gases que amplificam os processos de aquecimento global. Além disso, o insumo representa um dos maiores gastos para as companhias aéreas. Juntando a necessidade de reduzir custos e cumprir os acordos de baixo carbono, a LATAM criou o Programa de Eficiência de Combustível. “Criamos um grupo multidisciplinar de trabalho que passou a analisar as operações de voo e de solo, buscando oportunidades de redução no consumo. A economia, na prática, é alcançada modificando procedimentos como, por exemplo, o uso da unidade auxiliar de energia da aeronave (APU). Em certos momentos da operação, é substituída por motores externos mais eficientes e menos poluentes”, explica Enrique Guzman, gerente sênior de Meio Ambiente e Responsabilidade Social Corporativa do Grupo.

Além do trabalho em cima da logística, o Grupo investe também na renovação de frota, adquirindo aeronaves com motores mais eficientes, que consomem menos combustível e, consequentemente, emitem menos gases. Dependendo do modelo, a economia varia entre 25% e 15%. No Brasil, a maior parte do investimento teve como foco a compra de equipamentos de suporte para operação de solo. Ao longo de cerca de três anos, este investimento somou cerca de 10 milhões de dólares. “Tomando como base o ano de 2010, estes esforços já respondem por uma queda de 3,9% no consumo de combustível por voo. Todos os esforços, somados aos realizados nas nossas operações de solo, já foram capazes de reduzir em cerca de 4,2% o volume de nossas emissões de gases de efeito estufa poluentes”, aponta Guzman.

Essas iniciativas fazem com que o consumo médio de combustível do Grupo seja em torno de 8% menor do que a média da International Air Transport Association (IATA), que abrange 260 companhias aéreas e corresponde a mais de 80% do tráfego aéreo internacional. O projeto da Latam também concorreu ao Prêmio Eco em 2014.