Como jovens estão criando soluções para os problemas da água no Brasil

Como jovens estão criando soluções para os problemas da água no Brasil

Amcham Brasil

17 Novembro 2017 | 16h47

Uma completa imersão em um problema atual, sério e que precisa de soluções inovadoras: a questão da água. Essa é a proposta da Waterlution, organização canadense que atua com jovens líderes para formular ideias relacionadas ao insumo. Com apoio de grandes companhias e mentoria de empresários, a instituição seleciona jovens de um país e lança um desafio: em grupos, eles devem propor uma solução, inovação ou técnica para superar um desafio relacionado à água. Pela primeira vez aqui, o Water Innovation Lab Brasil (WIL) engajou mais de 80 pessoas oriundas de todas as partes do país. Durante a primeira semana de novembro, os participantes realizaram atividades e oficinas na cidade de Embu Guaçu. Ao final, em grupos, apresentaram suas ideias no dia 10/11 no espaço CO.W. Berrini, em São Paulo.

Dawn Fleming, responsável pela curadoria do WIL Brasil, afirma que a decisão de concretizar o projeto – que já passou pela Índia, Austrália e Portugal – veio do duplo papel do Brasil na questão da água. Ao mesmo tempo em que temos grandes oportunidades e riquezas em recursos hídricos (o país abriga 12% de toda a água doce do mundo), enfrentamos graves problemas no uso, desperdício e poluição de mananciais. Uma das principais questões é a do saneamento básico, ainda muito precário.

Recuperação de rios e lagos

Diariamente, são geradas 9,1 toneladas de esgoto e cerca de 45% da população não possui tratamento ou destinação adequada. Segundo a Agência Nacional de Águas (ANA), a situação se agrava no Norte, que possui apenas 33% do esgoto gerado tratado e no Nordeste (48%). Boa parte desses resíduos é descartada justamente em rios, lagos e mares, o que aumenta a matéria orgânica nestes locais. De acordo com a agência, mais de 110 mil km de trechos de rio estão poluídos, sendo que em mais de 83 mil km a captação para abastecimento público não é mais permitida.


O tratamento e recuperação destes locais foi pautado por um dos grupos. O projeto de Ilhas Flutuantes vem como uma solução barata, sustentável e eficiente nesses casos. Segundo Leonardo Tannous, Diretor Geral da ÁguaV e participante do WIL Brasil, as ilhas são sistemas construídos com materiais recicláveis e que dão suporte para diversas plantas. No rio, a raiz dessas proporciona um habitat para bactérias que ajudam a decompor a matéria orgânica.

“É uma tecnologia para vivificar e melhorar qualidade de água, seja para consumo humano ou para tratamento de esgoto. É uma tecnologia biológica, não usa produtos químicos e não requer grandes obras ou intervenções estruturais para poder ser instalada. É uma forma de melhorar a qualidade dentro de um corpo de água diretamente dentro do rio”, ressalta Tannous. Envolver a comunidade que mora ou trabalha ao redor daquele rio também é essencial para conscientizar as pessoas a evitarem a poluição.

Desastres e água

Falar em água no Brasil depois de 2015 é pautar também a questão dos desastres e os impactos nos corpos hídricos. Dois anos após a tragédia de Mariana (MG), cientistas e especialistas ainda não conseguem medir o tamanho do impacto ambiental causado na região. Em cinco de novembro de 2015, mais de 34 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério de ferro vazaram nos rios, formando uma lama tóxica que percorreu 663 km. O desastre matou 19 pessoas e afetou de forma definitiva a relação dos moradores da região com o Rio Doce.

Gaston Kremer, um dos participantes do WIL Brasil e colaborador da WTT, lembra da tragédia cotidiana que os moradores passam por não ter certeza sobre a qualidade da água do rio, antes usado para pesca e nas tarefas domésticas. Ele pontuou que a análise de qualidade de água geralmente é cara e demorada. Junto a outros jovens, Kremer desenvolveu o projeto Nu Sens, uma tecnologia que está sendo desenvolvida no Canadá de monitoramento e análise de água com sensores de baixo custo e a partir colorimetria. A inovação está na entrega do resultado: ele é instantâneo e os dados ficam ligados a um aplicativo de celular, que permite o compartilhamento de informações com transparência. Assim, qualquer pessoa com o aplicativo poderia acompanhar essas informações sem depender de divulgação de relatórios por instituições ou empresas.

“A ideia de tirar essa ideia do laboratório do Canadá e colocar no campo, no contexto de impacto social, em condições reais, nos levou a enxergar um piloto no Rio Doce. Esse rio sofreu um dos piores crimes, uma das piores tragédias ambientais na história do Brasil e como a gente tinha aqui moradores do Rio Doce, fez muito sentido aplicarmos essa tecnologia lá, com metodologias de desenvolvimento comunitário e articulação local”, resume.

Modelo de colaboração para soluções

Karen Kun, co-fundadora da Waterlution, lembra que a questão da água ganhou mais complexidade, principalmente com o horizonte das mudanças climáticas. Ela aponta que os efeitos do aumento de temperatura serão sentidos principalmente por nações mais vulneráveis e terão impactos na infraestrutura, nas cidades e fluxos migratórios desses locais. A ideia da colaboração é o caminho para achar soluções, segundo a especialista. “Acho que a coisa mais importante são parcerias multidisciplinares. Não podemos resolver assuntos complexos que nunca enfrentamos antes com métodos antigos”, pontuou.

O apoio de grandes empresas como Dow, IBM, Ambev, Grupo Europa e BRK Ambiental – que já vem na trajetória da sustentabilidade, algumas inclusive ganhadoras do Prêmio Eco da Amcham – mostra a preocupação do setor privado com essas questões no Brasil. Renato Ramos, diretor comercial da Dow Water & Process Solutions, avaliou que a disponibilidade e globalização do conhecimento facilitam o intercâmbio de experiências entre pequenas iniciativas ou startups com grandes empresas, simplificando a escalada da inovação. Durante o WIL, participou como mentor dos jovens e destacou o tratamento de esgoto e de água como temáticas recorrentes levantadas pelo grupo. “Acho que aí que a Dow pode ajudar muito, porque as nossas tecnologias vem justamente para trazer uma qualidade melhor da água. No que tange o esgoto, as novas tecnologias vem para transformá-lo em matéria prima de melhor qualidade para viabilizar o reuso”, opina.

Soluções diferentes, que trazem o olhar do jovem sobre as questões hídricas, pode ser chave em um momento em que o país se prepara para receber o 8º Fórum Mundial da Água em 2018. Mônica Queiroz, consultora e participante do projeto “Rumo a Brasília”, conta que a ideia é justamente trazer algumas soluções propostas por esses jovens para o Fórum para alavancá-las. “O Fórum vai acontecer em um dos momentos mais críticos de crise hídrica brasileira. Hoje temos um cenário emergencial, inclusive em Brasília, que vai ser a sede, é uma cidade que vive uma crise hídrica gravíssima. O que a gente espera é que no Brasil a gente tenha espaços para discutir a crise hídrica em um contexto maior de mudanças climáticas, mas também olhando uma esfera de discussão focada nos problemas do Brasil”, aponta a especialista.