Conexão empresas – ONGs: um futuro sustentável além do voluntariado

Conexão empresas – ONGs: um futuro sustentável além do voluntariado

Amcham Brasil

06 Fevereiro 2018 | 18h25

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2010, havia pelo menos 290 mil associações sem fins lucrativos no país. O terceiro setor no Brasil tem participação essencial na promoção de direitos, educação, assistência social e formulação de políticas públicas. Historicamente, essas associações têm apoiado grupos vulneráveis, internos e egressos do sistema carcerário e portadores de necessidades especiais. A pesquisa aponta que pelo menos 30,4 mil entidades apoiavam esses grupos naquele ano.

Estabelecer parcerias entre associações e empresas é uma prática antiga e que traz benefícios a ambas as partes. Para as ONGs, significa aporte de recursos ou materiais para concretizar suas atividades; para o outro lado, há melhora na imagem da corporação e maior engajamento de colaboradores. Dias especiais de voluntariado ou arrecadação de dinheiro para projetos e materiais são as ações mais comuns nesse caso.

No entanto, grandes multinacionais estão mudando o paradigma da “contribuição eventual” para criar relações mais próximas com o terceiro setor. Neste ano, a Ambev lançou o programa VOA, que selecionará ONGs para oferecer mentoria e compartilhar conhecimentos de gestão. Com isso, a organização busca dar mais ferramentas para que as entidades melhores seus processos e alcancem um impacto positivo cada vez maior.

Richard Lee, gerente de Relações Corporativas da Ambev, lembra que esse tipo de ação já era realizado pela empresa, mas de maneira tímida e pontual. “VOA é a proposta de voluntariado corporativo realmente sólida de forma que gere impacto ao longo do tempo. Não é só uma reforma de praça ou uma doação que, apesar de terem seu mérito, não são tão perenes. Por outro lado, a gente percebe que o funcionário, ao ser voluntário, tem mais engajamento. Sair um pouco da rotina para fazer algo que é bacana fora da organização, ministrando uma palestra ou curso, é um ganho interno”, explica.

A estruturação se deu depois que a empresa auxiliou uma ONG através de mentoria e, em um curto período de tempo, a entidade conseguiu melhorar em 96% sua captação de recursos, ao mesmo tempo em que melhorou metas e planos de carreira aos funcionários da organização. “Até então a nossa relação era de apoio mais pontual, e vimos que isso não é sustentável. Muito mais sustentável é capacitar a ONG pra ter resultados melhores e sozinha, não dependendo de uma empresa ou outra para tocar seu dia a dia. É sustentável se relacionar com a organização para tornar a sobrevivência dela mais sustentável”, revela Lee.

O programa está estruturado em seis encontros presenciais de abril a setembro em São Paulo e exercícios aplicados com mentoria à distância entre as aulas. As palestras serão ministradas por colaboradores da Ambev que se voluntariam de acordo com sua especialidade, seja gestão financeira, de projetos, de comunicação ou captação de recursos. Até agora, segundo a multinacional, mais de 500 colaboradores se registraram como voluntários. Ao final do curso, as ONGs devem apresentar um projeto prático com tudo o que foi discutido durante o ano e apresenta-lo ao Comitê de Avaliação. A que alcançar melhor avaliação final receberá aporte financeiro para concretizá-lo.

O primeiro ano do VOA servirá de base para decidir o futuro do programa, segundo Lee. Essa edição servirá para entender como é a melhor forma de relacionamento com as ONGs e testar os materiais, conteúdo e formato do curso. “Nada está fechado ainda. Podemos falar que o sonho é grande: a ideia é continuar fazendo o programa cada vez maior e mais sólido”, resume.

Outra exemplo de multinacional que atua de maneira integrada com as ONGs é a IBM: existe uma área de Cidadania Corporativa presente em todos os países em que a empresa atua. Jonathan Colombo, líder de Cidadania Corporativa da IBM Brasil, relata que há três atuações principais da área: educação, saúde e formação de comunidades resilientes. “Fazemos isso aplicando tecnologia, compartilhando conhecimento e promovendo inovação. Esse é nosso escopo”, resume.

Desde 2003, atuando em 120 países, a empresa contabilizou mais de 20 milhões de horas de voluntariado. Em termos de consultorias gratuitas à ONGs, desde 2010, foram duas mil em 70 países, através do programa IBM Impact Grants. Colombo conta que os projetos são tocados a partir da identificação da principal questão ou “pedra no sapato” da organização. A partir daí, os profissionais mais capacitados são selecionados para auxiliar.

Alguns exemplos de iniciativas bem sucedidas foram a parceria com o Laboratório de Educação e com o Instituto Reação. Com o primeiro, a IBM trouxe consultorias sobre Design Thinking, desenho de arquitetura de TI e estratégia de marketing para a criação do aplicativo “Apprendendo”. O app traz dicas de atividades do cotidiano que ajudam a enriquecer as interações entre crianças e adultos para promover um aprendizado e desenvolvimento infantil melhor. Para o Instituto Reação, os voluntários IBM entregaram um sistema de gestão educacional, desenvolvido em software livre, para estruturar o acompanhamento dos alunos atendidos pela instituição de esporte.

Um dos principais programas de voluntariado da IBM é o Corporate Service Corps (CSC). Em equipes pequenas, os profissionais da multinacional são selecionados para atuar em países emergentes para colaborar com soluções de problemas junto a governos, empresas e sociedade civil. O intercâmbio de funcionários de todo o mundo inclui alguns meses de preparação e um mês com dedicação exclusiva e remunerada para o projeto. Na última edição do programa, 12 colaboradores vieram para o Brasil e colaboraram com quatro organizações, aproveitando suas especializações para ajudar em problemas apontados pelas ONGs. Em Vitória, no Espírito Santo, os voluntários ajudaram em projetos relacionados à administração pública do Estado.